Bernard Marx tem um fraco pelo Flamengo, mas também mantém vínculos frouxos com Real Madrid e Manchester City. É um querer ralo, quase anestésico, mantido mais para azeitar relações sociais do que por um sentimento genuíno. Julga-se feliz, toda temporada pelo menos um desses clubes oferece taças e outras razões para um contentamento brando. Nunca, no entanto, experimentou os arroubos do velho John, o Selvagem, seu falecido bisavô.

CRÔNICAS DE FABRÍCIO BARCELOS

O pó ao qual Selvagem retornou, depois de uma vida de oito décadas devotadas ao Guarany, se diluiu abaixo do contrapiso do estacionamento da nova loja daquela rede da Estátua da Liberdade, a sexta inaugurada em Bagé. Quando manobra o carro por ali, Bernard Marx experimenta um mal-estar, como se estivesse violando o túmulo do velho.

Mas Selvagem, ao perceber que passaria dessa para o incerto, foi peremptório: “Joguem minhas cinzas no Estrela D’Alva”. Desde 2032, a cancha do Guarany não existe mais: a megaloja pegou o terreno em troca de uma arena asséptica, erguida com pré-moldado do outro lado da BR. A herança afetiva, o sofrimento, as glórias bissextas, tudo foi sepultado pela satisfação instantânea do consumo.

NA CANCHA DO GUARANY

Morto uma década antes do nascimento de Bernard, Selvagem se eternizou nas narrativas póstumas das loucuras feitas por amor ao Guarany de Bagé. Na Série D do remotíssimo ano de 2026, com o time necrosando na lanterna de um dos 32 grupos, viajou de ônibus até Cascavel, nos arredores do Paraguai, numa alegria misturada ao luto de talvez nunca mais ver o Guarany peleando em competição nacional.

Ao desembarcar de volta em Bagé, com as nádegas torturadas por dezenas de horas de estrada, foi recebido com abraços, apesar do novo insucesso em campo. No calor dos amigos, Selvagem se sentia pleno. O futebol era algo pelo qual valia a pena viver e, em certa medida, morrer.

AS DORES DO FUTEBOL

Numa manhã umedecida pelo inverno na campanha gaúcha, Bernard despertou de uma noite mal-dormida, sem sonhos. Engoliu sem água o ansiolítico, genérico do Soma. Na tarde anterior, o Real e o City haviam vencido, neutralizando o vexame do Flamengo, que empatara com o Olaria. Sete pontos de nove disputados, a matemática inspira uma felicidade aguada, irrigada por likes. Não tem a tenacidade do bisavô para esforços físicos e emocionais em favor de agremiações obscuras. Por que se submeter ao risco de dor quando há uma alternativa confortável, segura, digital?

Já sob o efeito levemente narcótico do comprimido, Bernard resolve passar na megaloja, aquela da Estátua da Liberdade, em cujo subsolo onde jaz, em pó, o fanático bisavô. Precisa de um aparador de pelos, importando da China. Vai se barbear e sentir-se relativamente pleno. Nunca vai experimentar um abraço por futebol nem ter as nádegas torturadas para ver um jogo que passa no smartphone. Bernard Marx é feliz.

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