Por Fabrício Barcelos

O sol do Rio, mesmo coado pelos morros, me tingiu a vista de um bege fumegante, lindíssimo. Mas nada resplandecia mais naquele entardecer do que teu distintivo, que avistei ao adentrar no Maracanã. A respiração vacilava, curta, muito pela emoção, mas também pela escalada até a arquibancada superior, onde acomodaram nossa gente. Dali, hipnotizado pelas tuas cores no placar eletrônico que uns meses antes servira à final da Copa, pensei, com o peito estufado: “que clubezinho atrevido, tchê!”

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Não sinto amargura quando lembro da peleia contra o Flamengo, mais de uma década depois. Sou capaz de reconstituir mentalmente cada segundo daquele 18 de março de 2015. Dias assim nunca terminam de acontecer em nós, e tu me deste semanas de eternidade. Quando ignoras a sentença de fracasso na cancha e ofereces um hiato de alegria, sinto a densidade do amor que te orbita.

Sou um sujeito meio nômade; amarrei cavalo em muito rincão e de cada um me fui choroso, deixando amigos. Nestes atrevimentos esportivos bissextos, com a final do Gauchão de 2018 ou essa noite mágica pela Copa do Brasil, tu me devolve os afetos esparramados na estrada. Todos se lembram de mim – e isso, índio velho, compensa as taças que tu és incapaz de erguer. Te perdoo, porque tu és uma parte determinante de quem sou. Nunca me deixas esquecer de onde eu vim, nem dos que saíram da vida depois de me inocular essa barra que é gostar de você, ou de ti, como dizemos na terrinha.

Começou com uma súplica de doação

Então não cabe frieza quando, no inverno de 2025, leio no zap uma súplica de doação, para que possas honrar o último compromisso pela última divisão do nacional, na qual não tiveste a decência de passar da primeira fase. Eu sei que há muitas temporadas tu convertes o final do contrato dos jogadores em trabalho voluntário – unilateralmente, sugere a montanha de processos na Justiça do Trabalho. Mas me custa crer na grana curta para ir à Itajaí, uma viagenzinha mixuruca, tão perto do Brasil cinza e úmido onde o poeta da nossa terra, Vitor Ramil, formulou a estética do frio. Dói, porque te vi guerrear em calores distantes.

Testemunhei tua coragem sob a chuva de julho no Recife, sob a secura de dar hemorragia nasal de Brasília, sob a ventania marítima de Cabo Frio, sob o aroma do tropeiro no Mineirão. E não penses que te usei como pretexto para fazer turismo em lugar fofo. Te vi espremido no concreto do Serra Dourada, aquele delírio de grandeza típico dos ditadores. Também te vi perder a final nos pênaltis em Muriaé e, com a alma em trapos, embarquei numa van dirigida por um motorista que cabeceava sonolento pelos tortuosos caminhos da zona da mata de Minas. Te vi em lonjuras bárbaras.

Uns caras te fatiam em dez

Como é que deixamos faltar dinheiro para chegar em Santa Catarina, tchê?! Agorinha ganhamos uma taça, finalmente. Uma alegria ancestral represada irrompeu. Foi a última peleia que disputamos do jeito que meu pai me apresentou para ti, do jeito que aprendi a te amar. Agora, uns caras te fatiaram em dez pedaços, e vão ficar com nove para eles, em troca de quitar as dívidas que te puxam para a sepultura e mais uns pilas pela próxima década.

Legal, não nos restava alternativa. Mas eles usam verbos da Faria Lima para falar de ti, e isso me dá medo. Empresas morrem, a gente sabe, mas tu és uma singularidade irrepetível. Se te matam, nada do que a humanidade inventar vai preencher os vazios de nossos domingos.

Te peço: siga existindo

Bueno, vivemos um totalitarismo sutil: igrejas, escolas, hospitais, pessoas, tudo é empresa, e existe para gerar valor monetário. Ninguém tem escolha, caímos como gado no brete nessa armadilha. Mas, contigo, com as tuas coisas, nem Marx consegue me fazer racional. Aceito qualquer arranjo que me permita alimentar devaneios enquanto, sobre um gramado, houver tua camisa vermelha, teu calção preto e tua meia branca, precocemente encardida. Em troca dessa angústia, só te peço uma coisa: siga existindo.

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Quem é ele

Nascido em Pelotas (RS), há já distantes 52 anos, Fabrício Barcelos é jornalista e professor de Literatura. Liderou redações em São Paulo, Santa Catarina e Goiás e hoje se dedica a narrativas de relações públicas. Também dá aulas no Cursinho Demétrio Campos, voltado à população trans. É torcedor do Brasil de Pelotas, o Xavante, o que deixa evidente que se interessa menos pela beleza do que ocorre dentro de campo e mais pelo que inventamos em torno do jogo, para espantar a solidão e o vazio da existência. É sobre essa ficção coletiva que trata nas crônicas que escreve por aqui. Jornalista, cronista e professor de
Literatura. Fabrício Barcelos chega para reforçar o time do The Football

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