Carlo Ancelotti completa seis meses de trabalho à frente da seleção brasileira no próximo dia 26. E na tarde deste sábado comandará o time pela sétima vez, agora em um amistoso contra Senegal, em Londres. Superada a fase de lua de mel com o torcedor brasileiro e quase encerrado o período de testes e observações do pré-Mundial de 2026, o treinador admite que o benchmark do seu projeto é a seleção que levantou o tetra na Copa de 94, sob o comando de Carlos Alberto Parreira — numa final vencida justamente contra a Itália do próprio Ancelotti.
Para ele, a chave do sucesso na Copa de 2026 está na missão de espelhar a eficiência defensiva daquele time, combinada à excelência de dois atacantes do quilate de Bebeto e Romário. Sua atenção ao sistema de marcação não é novidade. Sua origem não nega uma certa predileção pelo futebol defensivo.

Uma vez questionado sobre o que achava de ainda não ter tomado gol nos jogos da seleção, Ancelotti brincou com a gênese dos seus conceitos de futebol. “É muito bom não ser vazado. Não esqueçam que eu sou italiano”, disse, misturando bom humor e autenticidade.
Esquema tático
O sonho de montar uma seleção super ofensiva, aproveitando a safra de talentos que colocou em suas mãos uma geração com Vini Júnior, Estevão, Endrick, Raphinha, Martinelli, Rodrygo, deu uma murchada depois dos três gols sofridos diante do Japão. Foi uma espécie de alerta — e um bom motivo para reforçar as convicções táticas do treinador, forjado no calcio, onde prospera até hoje a cultura do catenaccio (cadeado), tradição que representa o conhecido ferrolho das sólidas defesas italianas.

Para montar essa seleção inspirada em 94, Ancelotti deve testar neste sábado o zagueiro Militão como lateral-direito — ou como um terceiro zagueiro pela direita, função que tantas vezes exerceu no Real Madrid do próprio Ancelotti. O desenho segue com dois volantes, Casemiro e Bruno Guimarães (reeditando a dupla Dunga/Mauro Silva), e quatro jogadores de frente com liberdade para atacar, mas com compromissos táticos para ajudar a defender. É um 4-2-4 com cara de 4-3-3, ou vice versa.
Futebol eficiente
Parece não importar para Ancelotti o fato de a seleção de 94 ter sido o time campeão do mundo que menos suspiros arrancou da torcida brasileira e elogios da crítica internacional. Há até quem prefira os dois times de Telê Santana nas Copas de 82 e 86 — que não venceram, mas encantaram o mundo da bola. Ancelotti não é produto de um futebol-show, mas, sim, da eficiência, do compromisso tático e do senso de responsabilidade coletiva na marcação. Sua ideia de jogo respeita e valoriza a defesa como princípio do jogo ofensivo.
Controle de jogo é essencial
Em 94, Parreira chegou a dizer que o gol era um detalhe. Importante mesmo era ter o controle do jogo e a posse de bola. Um raciocínio que, desvirtuado, foi muitas vezes usado para diminuir o trabalho do treinador do tetra. Mas que, na essência, explicava o sucesso de sua tática: se seu time tem a bola no pé e o jogo sob controle, a chance de o adversário te atacar praticamente não existe. Ancelotti sabe disso como poucos.

Mesmo no super time do Real Madrid, que levou a tantos títulos com um futebol vistoso e executado por craques acima da média, nunca descuidou da defesa, da organização, da marcação sem a bola, da ocupação dos espaços para impedir a articulação rival — e, sobretudo, da obsessão pela retomada da bola para que o adversário não ditasse o ritmo da partida.
Brasil como a Itália
Com tantos craques à disposição, e com tudo o que sabe sobre futebol, Ancelotti bem que poderia, seis meses depois da estreia, estar prometendo um time avassalador como o de 70, brilhante como o de 2002 ou mitológico como os de 58 e 62. Mas, como bom italiano que é, prefere ter como farol o time de 94, moldado por Parreira à luz de uma ideia de jogo que dispensava o brilho e se concentrava na eficiência.
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Se vai dar certo outra vez, só o tempo dirá. Mas que a cada dia que passa a figura de Ancelotti à frente da seleção nos dá a certeza de que o futebol brasileiro está em boas mãos, isso parece evidente. Depois de anos tropeçando entre projetos fracassados e apostas inconsistentes, finalmente o Brasil tem um técnico para chamar de seu. Boa sorte, Carletto!





