O Palmeiras da era Abel Ferreira acostumou-se a ganhar, mas aparentemente ainda não aprendeu a perder. Talvez uma coisa leva naturalmente à outra. Quando um time alcança o nível de resultados obtidos pelo clube nos últimos seis anos, torna-se difícil normalizar eventuais derrotas — ainda que o próprio Abel costume lembrar ao mundo que no esporte nem sempre é possível ganhar tudo.

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Pena que ele e seus auxiliares mais próximos na comissão técnica nem sempre sigam essa premissa básica de que perder também faz parte do jogo. Há entre eles uma clara dificuldade de aceitar resultados adversos. Pior: sempre que o Palmeiras perde um jogo, surge uma dificuldade ainda maior de assumir responsabilidade pelo fracasso e pelos erros cometidos em campo.

João Martins, auxiliar de Abel, critica gramado de São Januário após duelo entre Vasco e Palmeiras / Palmeiras

O roteiro se repetiu na noite de quinta-feira, no Rio, na surpreendente derrota de virada por 2 a 1 para o Vasco. Em vez de tratar o resultado como um tropeço absolutamente normal em um campeonato de 38 rodadas, João Martins — auxiliar de Abel — preferiu encontrar um culpado fora das quatro linhas. O alvo da vez foi o gramado de São Januário.

Ironia ou provocação barata?

Em tom irônico, Martins comparou o campo do estádio vascaíno a uma “plantação de batatas” — tubérculos que crescem sob a terra, criando irregularidades na superfície. Uma tirada espirituosa, talvez, mas absolutamente desnecessária, indelicada e, de certo modo, já previsível dentro do comportamento recente da comissão técnica alviverde em momentos de crise.

Narrativas e muletas retóricas

Os portugueses da comissão de Abel parecem se revezar na arte de apontar defeitos estruturais do futebol brasileiro sempre que o resultado não aparece. Às vezes a culpa é da arbitragem ou do calendário. Houve até o momento em que se tentou sustentar uma narrativa conspiratória de um complô da CBF para impedir conquistas consecutivas do Palmeiras no Brasileirão.

João Martins, auxiliar de Abel Ferreira no Palmeiras, mais uma vez falou bobagem para explicar uma derrota / Palmeiras

Nada disso combina com a grandeza do trabalho realizado pela atual gestão técnica. O número de vitórias e títulos conquistados legitima plenamente a eficiência de Abel no clube. Eles já ocupam um lugar definitivo na história, superando nomes lendários como Oswaldo Brandão e Luiz Felipe Scolari, e não precisam recorrer a esse tipo de muleta retórica para explicar revezes.

Guerra dos gramados

Bastaria assumir aquilo que o próprio Abel costuma defender: o futebol é imprevisível e se alimenta do mérito do adversário. No caso de São Januário, não faltariam argumentos plausíveis para contextualizar o tropeço, como o desgaste físico após um jogo sob chuva em Novo Horizonte e a motivação do Vasco pela estreia de um novo treinador em sua casa.

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Entretanto, a escolha de João Martins foi outra, ao afirmar que por baixo do campo “parece que plantaram batatas” com desníveis de meio metro. A crítica, além de deselegante com o rival, ressuscita a eterna guerra entre gramados naturais e o sintético da arena palmeirense. Um debate que já se desgastou de tanto ser repetido e que não será resolvido com ironias.

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