Dizem no folclore do futebol brasileiro que há certas coisas que só acontecem com o Botafogo. Mas a julgar pela tarde deste domingo no Estádio Nilton Santos, talvez seja preciso atualizar o velho ditado esportivo para uma adaptação tão provisória quanto necessária: tem coisas que só acontecem com o Corinthians.
E uma delas certamente é transformar um centroavante criticado, contestado e até desacreditado em protagonista absoluto de uma atuação de gala digna de supercraque mundial.

Pois foi exatamente isso que aconteceu no Engenhão. Arthur Cabral, atacante que esteve muito próximo de acertar com o Corinthians na última janela e só não vestiu a camisa alvinegra por causa do alto salário, marcou os três gols da vitória do Botafogo por 3 a 1 — dois deles em chutes absurdos de fora da área.
De volta à zona do rebaixamento
Enquanto Arthur Cabral vivia sua tarde de redenção pessoal, o Corinthians afundava mais um pouco na própria agonia dentro do Campeonato Brasileiro. Com apenas uma vitória fora de casa em 17 partidas, o time de Fernando Diniz voltou a perder longe de Itaquera e recolocou os dois pés na zona de rebaixamento. Os 18 pontos transformam o cenário em algo cada vez mais preocupante. E existe um risco concreto de o clube entrar na parada para a Copa do Mundo mergulhado na área da degola, cenário que inevitavelmente aumentará a pressão sobre um trabalho que ainda busca algum sinal consistente de reação.
Problemas conhecidos
O mais cruel para o torcedor corintiano talvez seja perceber que o roteiro da derrota já começa a ganhar contornos repetitivos. O Corinthians novamente iniciou um jogo de Brasileirão em desvantagem, novamente demonstrou fragilidade defensiva e novamente sofreu demais para sustentar a competitividade durante os 90 minutos.
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Os primeiros 45 minutos foram elétricos. Antes mesmo dos dez minutos o placar já mostrava dois gols. Aos seis, Arthur Cabral abriu o marcador antecipando uma tarde mágica no Engenhão. Após disputa aérea de Villalba com Gustavo Henrique, a bola sobrou limpa para o atacante, que dominou com liberdade fora da área, ajeitou para a canhota e acertou o canto de Hugo Souza. Um chute seco, preciso, indefensável. O Corinthians respondeu rapidamente. Aos dez minutos, Rodrigo Garro aproveitou desarme de Raniele sobre Huguinho na saída de bola do Botafogo e empatou a partida. Parecia o prenúncio de um jogo aberto, equilibrado e emocionalmente intenso. E foi.

Só que o Botafogo tinha um detalhe decisivo: um camisa 10 inspirado e um centroavante em estado de graça. O pequeno e habilidoso Montoro deitou e rolou diante da frouxa marcação do meio-campo corintiano. Flutuou entre linhas, organizou jogadas, acelerou transições e comandou o ritmo ofensivo do time carioca como um verdadeiro maestro. Toda vez que recebia a bola havia espaço para pensar e criar. Contra um Corinthians vulnerável defensivamente.
Golaço de Arthur Cabral
Ainda houve tempo para um pênalti marcado para o Botafogo e depois anulado pelo VAR após revisão da jogada envolvendo Gustavo Henrique e Ferraresi. Mas a tarde estava mesmo reservada para Arthur Cabral. Aos 31 minutos veio outro golaço. Livre pelo corredor central, o atacante recebeu ainda no meio-campo ofensivo, percebeu espaço, ajeitou para a direita e soltou um verdadeiro pombo sem asa no ângulo de Hugo Souza. Um chute de almanaque.
O Timão ainda quase empatou antes do intervalo em cabeçada de Raniele no travessão após cruzamento preciso de Matheuzinho. Depois, chegou até a balançar as redes em cobrança de escanteio de Garro, mas o lance acabou invalidado porque a bola não estava na marca correta no momento da cobrança. E o juiz havia apitado antes do gol.
Armadilha pronta
No segundo tempo, o Botafogo fez exatamente o que queria. Baixou suas linhas, entregou campo ao Corinthians e esperou o momento certo para matar o jogo no contra-ataque. E o plano funcionou com perfeição. Aos 26 minutos, Arthur Cabral apareceu outra vez. Em mais um lance de desatenção defensiva, André Ramalho hesitou, pediu uma falta inexistente e viu o atacante completar sua tarde mágica com o terceiro gol. Hat-trick. Atuação memorável. Talvez a melhor desde que voltou ao futebol brasileiro.
Do outro lado, Fernando Diniz já parecia lutar contra o inevitável. No desespero, tirou Bidon, Garro e Carrillo para lançar Dieguinho, Alan e Pedro Raul. O Corinthians, que já encontrava dificuldades para organizar minimamente suas ações, ficou ainda mais desfigurado, espaçado e emocionalmente abatido.
Arthur Cabral é seleção
Na véspera da convocação da seleção brasileira para a Copa do Mundo, a torcida do Botafogo deixou o estádio cantando em tom de deboche e euforia: “ão, ão, ão… Cabral é seleção”. Uma ironia divertida para uns, mas dolorosa para outros. Porque se existem certas coisas que só acontecem com o Botafogo, o Brasileirão de 2026 também começa a mostrar que existem tragédias que parecem exclusividade do Corinthians.





