A grande notícia de hoje, o fato relevante esportivo desta terça-feira, vem de Brasília. E não está diretamente ligado ao futebol em si. Ou apenas ao futebol, posto que é um ato político. Muitas vezes já se disse a bobagem de que futebol e política não se misturam.

A premissa, além de errática, foi sepultada de vez nesta terça (2/12), quando a Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania concedeu, por unanimidade, perdão e indenização a José Reinaldo Lima — o Reinaldo, do Atlético Mineiro e da seleção Brasileira — por ter sido perseguido pelo regime militar (1964-1985).

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É um fato histórico. Justo, reparador, ainda que insuficiente. Porque há muitos outros Reinaldos pelo país: atletas, treinadores, árbitros, dirigentes, jornalistas, todos que, à sua maneira, enfrentaram a torpeza de um Estado sempre disposto a esmagar liberdades quando guiado pelos impulsos autoritários. Também no esporte, o Brasil anda precisando ser passado a limpo, removendo a poeira grossa dos porões da ditadura.

Reinaldo: luta contra a ditadura teve, finalmente, um fim na história e na carreira do atacante do Atlético Mineiro / MDHA

A sessão desta terça analisou 21 pedidos. Entre eles, do jogador. Além da condição de anistiado político, Reinaldo reivindicava uma indenização — concedida em parcela única de R$ 100 mil. O dinheiro, aqui, é o de menos. A cifra é modesta diante dos horrores impostos a ele e a todos os brasileiros que ousaram desafiar o sistema, erguer uma voz dissonante, insistir no direito elementar à liberdade de pensamento. Mas tem simbolismo. É o Estado reconhecendo, tardiamente, sua própria violência.

Reinaldo como jogador e ativista

As novas gerações, que acham que o futebol começou com o brilho da Champions League, o hat-trick estilizado e a metáfora esvaziada do “box-to-box”, provavelmente não fazem ideia de quem foi Reinaldo como jogador e como ativista. Não sabem que sua importância transcende gols, dribles e artilharias. Ignoram o papel que ele desempenhou para movimentos democráticos, para o combate ao autoritarismo, para a defesa das minorias, dos negros, dos desassistidos pelo poder público, dos estudantes sufocados por um país esmagado pelos coturnos do silêncio e pelas baionetas do medo.

Reinaldo estava presente na sessão. Chorou durante quase todo o pronunciamento. Revisitar traumas é revisitar feridas abertas. Contou como foi perseguido fora das quatro linhas, alvo de uma campanha de difamação que o atravessou como cidadão e lhe fechou portas na seleção brasileira por motivos unicamente políticos. Desabafou sem filtros, como quem, depois de décadas, finalmente encontra um espaço institucional para dizer em voz alta aquilo que o Estado tentou enterrar.

O que disse hoje Reinaldo

“Durante os anos da ditadura, muita gente sofreu perseguição de várias formas. Todos nós sabemos dos horrores, das prisões, das torturas, que tiraram a liberdade e a vida de tantos brasileiros. Mas a verdade é que a repressão do Estado foi muito além dos porões e das celas”, disse, chorando. E estava certo. A ditadura produziu estragos diretos e devastadores — corpo, alma, carreira, história. Mas produziu também o terror psicológico permanente, o medo como política pública.

O gol e o gesto de punhos fechados: Reinaldo, do Atlético-MG, foi um ativista na luta contra a ditadura no país / Atlético-MG

O ex-jogador lembrou que o regime militar, em sua ânsia de controlar tudo e perseguir quem pensava diferente, acionou não apenas a violência física, mas campanhas sistemáticas de difamação. “Eles criaram campanhas de mentiras para acabar com a reputação e a vida social de pessoas que consideravam inimigos ou ameaças ao poder deles.”

Hoje falamos em fake news, milícias digitais, deep fakes e laboratórios de manipulação. No passado, sem tecnologia alguma, já havia uma engrenagem oficializada para destruir reputações. Telefonemas, cartas anônimas, dossiês fraudulentos, manipulação da imprensa. A máquina da mentira era artesanal, mas tão mortal quanto a de hoje.

Guerra psicológica

“Existia, sim, uma central de boatos oficial, uma verdadeira máquina de propaganda e mentiras que agia nas sombras, mas com resultados terríveis na vida real”, relatou. Muitas vezes, jornais e revistas publicavam aquilo que sabiam ser falso, por medo ou conveniência, transformando Reinaldo em “subversivo”, inimigo interno de um país construído sobre narrativas paranoicas. “Era uma tática de guerra psicológica, feita para isolar e destruir a pessoa, sem precisar de um tiro ou da prisão.”

Sua perseguição foi formalizada pelo SNI, o Serviço Nacional de Informações, cujas notas serviam de base para prisões, torturas, vigilância e silenciamento. Reinaldo também foi alvo dos generais que comandavam o governo e a própria Confederação Brasileira de Desportos (CBD), atual CBF, por ter a ousadia de comemorar gols com o punho cerrado.

A ditadura militar tentou transformar o atacante Reinaldo, do Atlético, num subversivo: tática de guerra / Atlético-MG

O gesto ecoava os Panteras Negras, ecoava resistência, liberdade num país que vivia de negar a própria sombra. Isso bastou para torná-lo inimigo. Bastou para restringir sua trajetória na seleção. Basta lembrar que, apesar de estar em plena forma, ele não foi convocado para a Copa de 1982. Telê Santana alegou questões físicas. Todos sabiam que a razão real estava nos porões — e não nos campos.

A Copa do Mundo perdida

“As campanhas de difamação e de perseguição política me tiraram muitas oportunidades”, disse o ex-atacante. “Talvez a prova mais evidente seja a não convocação para a Copa de 1982, em que, apesar de o treinador falar em questões físicas, todo mundo sabia que os motivos eram as restrições sobre o meu suposto comportamento fora de campo.” Voltou a chorar. E fez o país, ou ao menos parte dele, chorar junto.

É por isso que a decisão da Comissão de Anistia não é apenas um gesto burocrático. É memória. Justiça tardia. É a reafirmação de que futebol e política sempre estiveram entrelaçados — pela alegria, pela resistência, pela propaganda, pela censura, pelos símbolos, pelos corpos que incomodam, pelos discursos que desafiam. A ditadura tentou arrancar de Reinaldo sua carreira, seus gols, sua imagem e seu futuro.

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Não conseguiu. Hoje, finalmente, o Brasil reconheceu isso. Ainda que tardiamente. Ainda que timidamente. Mas reconhece. E é dessa memória que se constrói o presente. E, sobretudo, o futuro. Justiça Quae Será Tamen!

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