O Brasil já está no país da Copa. Antes da bola rolar, a seleção escolheu um caminho pouco habitual para quem carrega cinco estrelas no peito. A delegação desembarcou na manhã desta terça-feira nos Estados Unidos medindo as palavras e tomando cuidado para não cair na armadilha da soberba que tantas vezes acompanha a escola mais vitoriosa da história das Copas do Mundo.

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Ainda que mantenha o discurso otimista que adotou desde que assumiu o cargo, Carlo Ancelotti calçou as sandálias da humildade ao pisar em solo americano. O treinador italiano afirmou que fará o seu melhor para conduzir o Brasil ao hexacampeonato, mas tratou de afastar qualquer ideia de favoritismo absoluto. “Essa Copa não tem um grande favorito”, resumiu.

Casemiro desembarcou nos Estados Unidos pregando humildade e reconhecendo que o Brasil não é favorito na Copa / CBF

Certamente é uma forma elegante de reconhecer aquilo que poucos na CBF ou no elenco diriam de maneira tão explícita: o Brasil está entre os candidatos ao título por sua história e tradição, mas não é apontado como o principal deles. Há seleções que chegam mais prontas, mais organizadas e com processos mais maduros. Ancelotti sabe disso.

O que Casemiro disse

Na mesma linha seguiu o capitão Casemiro. Ao desembarcar em Nova Jersey, o volante foi ainda mais direto ao abordar a atual hierarquia do futebol mundial. “Dessa vez, viemos com esse passinho atrás, mas o alerta está sempre ligado. Temos mais jogadores jovens, que terão maior protagonismo e a mescla está boa. E um treinador com total experiência, apesar de ser a primeira Copa. Chegamos fortes. Existem outras seleções que estão à frente do nosso processo. Não precisa ficar falando quais são, mas sabemos que há seleções na frente.”

As declarações dos dois principais líderes da seleção refletem uma realidade difícil de contestar. O Brasil viveu talvez o mais conturbado ciclo preparatório de sua história recente. Em quatro anos, a seleção trocou de treinador três vezes, atravessou crises políticas dentro da própria CBF e acumulou tropeços que pareciam incompatíveis com sua tradição. Nas Eliminatórias Sul-Americanas, sofreu derrotas inéditas, viu seu desempenho despencar e esteve mais próximo do que nunca de uma situação impensável para gerações anteriores: correr riscos reais na luta pela classificação. Em outros tempos, falar em repescagem para o Brasil seria motivo de piada. Desta vez, durante parte do caminho, tornou-se uma preocupação concreta.

Seleção brasileira já está nos Estados Unidos: delegação faz um amistoso contra o Egito antes do Mundial / CBF

Os problemas não ficaram restritos aos bastidores. Dentro de campo, Ancelotti também viu seu plano de jogo ser afetado por circunstâncias que escaparam ao seu controle. Neymar chegou à Copa lesionado, vítima de uma contusão de grau 2 na panturrilha direita que deve afastá-lo dos gramados por pelo menos mais algumas semanas. Rodrygo e Estevão, peças importantes na estrutura imaginada pelo treinador italiano, também ficaram pelo caminho em razão de problemas clínicos.

Discurso cauteloso de Ancelotti

Diante desse cenário, realmente não parece haver espaço para o canarinho cantar de galo. O Brasil continua sendo o Brasil. Sua camisa continua impondo respeito. Sua história continua sendo única. Mas a tradição, sozinha, não vence torneios. Se existe uma diferença em relação a outras Copas, ela está na maneira como a seleção encara a própria condição. Pela primeira vez em muito tempo, não há a sensação de que basta entrar em campo para que o favoritismo seja reconhecido pelo mundo. Espanha, França, Inglaterra, Argentina e outras potências chegam aos Estados Unidos respaldadas por trabalhos mais estáveis e ciclos mais consistentes.

E talvez seja exatamente aí que mora a principal reflexão. Até que ponto deixar de ser apontado como favorito é algo ruim? Claro que isso fere o orgulho de um país acostumado a olhar para as Copas do Mundo de cima para baixo. Se Ancelotti e Casemiro adotam um discurso cauteloso, é porque a realidade recomenda prudência. O Brasil desperdiçou tempo, acumulou erros e pagou o preço por uma preparação marcada pela instabilidade.

Copa meio cheio ou meio vazio?

Mas existe também a metade cheia do copo, o outro lado da moeda. Talvez pela primeira vez em muitos anos a seleção desembarque em uma Copa sem o peso sufocante da obrigação absoluta de vencer. Sem a arrogância que, por vezes, acompanha a própria história. Sem a falsa impressão de que o talento individual é suficiente. Reconhecer que existem adversários mais adiantados em seus processos não diminui o Brasil. Pelo contrário. Pode representar um raro exercício de lucidez.

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Nenhuma seleção conquista uma Copa apenas pela força de sua tradição. Ao mesmo tempo, nenhuma tradição tão poderosa quanto a brasileira pode ser ignorada quando a bola começa a rolar. O hexa não está logo ali, esperando para ser recolhido. Será preciso construí-lo partida após partida, superando as limitações que o próprio ciclo escancarou. Se a humildade demonstrada no desembarque for apenas discurso, o Brasil corre o risco de confirmar os tropeços de uma preparação turbulenta. Mas, se ela refletir uma compreensão genuína da realidade, pode se transformar na principal virtude de uma equipe que chega à Copa sabendo exatamente onde está.

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