Num tempo em que ainda não havia futebol, os bailes da corte francesa entraram para a história pela sofisticação, pela música, pelo poder da nobreza e pelas máscaras. Eram espetáculos de luxo, onde a aristocracia, muitas vezes, escondia a verdadeira identidade de seus representantes como forma de protegê-los dos comuns. Séculos depois, eis que a seleção francesa resolveu resgatar essa tradição de um grande baile no MetLife Stadium, em Nova Jersey, mas com uma diferença fundamental: dispensou as máscaras. Diante da Suécia, apresentou-se exatamente como é. Um time que joga por música, transforma o futebol em arte coletiva e faz os adversários dançarem ao ritmo de uma orquestra afinada.
O 3 a 0 desta terça-feira foi um recital de bola. Um daqueles resultados incapazes de traduzir o que realmente aconteceu em campo. A França atropelou. Dominou a posse de bola desde os primeiros minutos, empurrou a Suécia para dentro do próprio campo e criou oportunidades suficientes para transformar a classificação às oitavas de final em uma goleada histórica. O goleiro da Suécia, a bem da verdade, impediu esse desastre.

França faz espetáculo de gala
Logo no início, a posse de bola já beirava os 70%. A Suécia praticamente assistia ao recital. Michael Olise encontrou Mbappé em profundidade para um gol anulado por impedimento. Depois vieram as finalizações de Rabiot, as grandes defesas de Jacob Widell Zetterström, a bola de Mbappé na trave, o voleio espetacular de Olise no poste e uma sequência de ataques que transformaram o goleiro sueco no personagem mais importante da primeira etapa.
Existe algo de extraordinário nesse time de Didier Deschamps. Em uma época marcada por seleções excessivamente dependentes de um craque de referência, os franceses caminham na direção oposta. Reúnem alguns dos melhores jogadores do planeta, mas fazem questão de colocá-los a serviço do coletivo. Pelo menos dentro de campo, com o jogo em curso, não existem estrelismos. Existe uma ideia de um por todos, todos por um. Uma equipe compacta, organizada, intensa, que ocupa os espaços com inteligência e parece compreender intuitivamente onde cada companheiro estará um segundo depois.
Mbappé comanda orquestra
É o futebol associado à excelência. Mesmo dentro dessa engrenagem coletiva, alguns músicos merecem aplausos individuais. Olise foi o maestro da noite. Encontrou espaços onde ninguém mais enxergava, distribuiu passes verticais com uma naturalidade impressionante e participou diretamente dos gols, sem contar a meia bicicleta que parou na trave do arco sueco. Dembélé foi um tormento aberto pela direita. Tchouaméni comandou o meio-campo com autoridade absoluta. Rabiot conduziu as transições como quem dita o ritmo de uma sinfonia. E Mbappé fez aquilo que os grandes protagonistas sempre fazem: decidiu o jogo na hora em que era preciso.
O gol que abriu o placar, aos 44 minutos do primeiro tempo, nasceu justamente da essência desse futebol. Uma cobrança rápida de escanteio, troca de passes em velocidade, movimentação constante e Mbappé recebendo dentro da área para cortar a marcação e finalizar com categoria. Mais do que colocar a França em vantagem, o camisa 10 voltou a escrever seu nome na história das Copas. Chegou aos 17 gols em Mundiais, ficando atrás apenas de Lionel Messi entre os jogadores em atividade, e tornou-se o maior artilheiro da história das fases eliminatórias da competição, ultrapassando Ronaldo Fenômeno e Leônidas com nove gols em mata-matas. Mas ainda havia mais.

Atacante insaciável
Se o primeiro tempo já havia sido um recital, a etapa final apenas confirmou que aquele baile ainda estava longe de terminar. O segundo tempo manteve o mesmo roteiro, apenas com um detalhe: a França passou a transformar domínio em gols. O segundo gol resumiu toda a proposta francesa. Aos 8 minutos, Olise arrancou pelo meio do ataque e encontrou Barcola com um passe preciso. O atacante invadiu a área e bateu firme para ampliar. Simples. Natural.
Aos 26 minutos, Mbappé iniciou a jogada com um passe preciso para Olise. Livre, o camisa 11 invadiu a área, mas parou na saída corajosa de Zetterström, que fechou o ângulo e evitou o chute. A bola, porém, voltou para Mbappé. E conceder uma segunda oportunidade ao maior artilheiro desta Copa é um luxo que nenhuma defesa pode se permitir. Aos 29 minutos do segundo tempo, em jogada pela esquerda do ataque, Olise encontrou Mbappé com um passe preciso. O camisa 10 atacou o espaço, em posição livre de impedimento, venceu a linha defensiva sueca e finalizou com categoria para fazer 3 a 0, um placar que ainda era modesto diante da superioridade francesa.
O atacante chegou a 18 gols em 18 partidas de Copa do Mundo. Dez deles foram em mata-matas, novo recorde histórico da competição. O gol coroava mais uma atuação gigantesca do camisa 10. A França já não jogava contra a Suécia. Jogava contra qualquer dúvida que ainda pudesse existir sobre sua condição de favorita ao título.
Seleção a ser batida
A cada partida, a França vai desmontando uma das principais teses que cercavam esta Copa do Mundo. Dizia-se que existia um grande bloco de favoritos — Argentina, Brasil, Espanha, Inglaterra, Portugal e França — separados por diferenças mínimas. O que o torneio tem mostrado é outra realidade. Hoje, existe uma seleção alguns passos à frente das demais.
Nem mesmo a campeã mundial Argentina tem apresentado um futebol tão dominante, tão coletivo e tão consistente quanto os franceses. Se a decisão do Mundial repetir a final do Catar, ninguém poderá dizer que será obra do acaso. França e Argentina são, até aqui, as duas histórias mais fortes do torneio. A diferença é que, neste momento, os franceses parecem tocar uma música que ninguém mais consegue acompanhar.
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O próximo desafio será contra o Paraguai, a seleção aplicada e corajosa que eliminou a poderosa Alemanha e já protagonizou uma das maiores surpresas desta Copa. Os paraguaios certamente venderão caro a classificação. Mas a pergunta que hoje ecoa pelos corredores do Mundial já não é mais se a França pode conquistar o bicampeonato consecutivo. A pergunta que inquieta todos os adversários é outra. Como parar uma seleção que transformou a Copa do Mundo em um baile e parece determinada a conduzir todos os convidados até a última dança?





