O Haiti é um bom adversário para o Brasil. Em 2004, pouco tempo depois da conquista do pentacampeonato mundial, a seleção brasileira desembarcou em Porto Príncipe em meio à guerra civil que devastava o país caribenho para disputar o que entraria para a história como o Jogo da Paz. Naquela tarde, futebol e diplomacia caminharam juntos na tentativa de oferecer algumas horas de trégua a uma população sufocada pela violência. Ironicamente, duas décadas depois, foi o Haiti quem trouxe paz ao Brasil, que venceu por 3 a 0, nesta segunda rodada da Copa do Mundo.

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A expressiva vitória na noite desta sexta-feira, na Filadélfia, retirou parte do peso deixado pela decepcionante estreia diante do Marrocos e devolveu tranquilidade ao ambiente da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026. Mais do que os três pontos, o time de Carlo Ancelotti reencontrou confiança, mostrou sinais da identidade ofensiva que o treinador tenta construir e passou a enxergar o restante da fase de grupos por uma perspectiva muito menos angustiante. O resultado colocou o Brasil na liderança do Grupo C, empatado com o Marrocos em pontos, mas em vantagem no saldo de gols. Agora, diante da Escócia, a seleção dependerá apenas de si para avançar ao mata-mata e seguirá em vantagem na disputa pela primeira colocação da chave.

Brasil Decisivo dentro da área, Matheus Cunha deixa a sua marca com os dois primeiros gols da seleção brasileira na vitória sobre o Haiti
Decisivo na área, Matheus Cunha deixa a sua marca com os dois primeiros gols do Brasil na vitória sobre o Haiti / CBF

Brasil dá sopro de esperança

Naturalmente, é preciso relativizar a goleada. Não seria sério concluir que todos os problemas apresentados contra o Marrocos desapareceram em apenas uma partida. Tampouco se pode ignorar a enorme diferença técnica entre as equipes. Com todo respeito ao Haiti, o Brasil tinha a obrigação de vencer. A cobrança legítima era pela forma como venceria. E, nesse aspecto, a resposta foi positiva. Especialmente no primeiro tempo, o Brasil mostrou muitas virtudes.

Experiente o suficiente para não se deixar conduzir pela turbulência das críticas, Ancelotti resistiu à tentação de promover uma revolução após a estreia. Fez apenas duas alterações esperadas na equipe — Danilo na vaga de Ibañez e Matheus Cunha voltando para ocupar o lugar de Igor Thiago. Com isso, manteve intacta sua ideia de um time agressivo, pressionando alto, recuperando a bola no campo adversário e atacando em velocidade pelos lados.

O Haiti tentou se proteger com uma linha de cinco defensores. Na prática, porém, a estratégia acabou produzindo o efeito contrário. Os espaços surgiram justamente às costas dessa última linha, território onde Vinícius Júnior e Raphinha encontraram campo para acelerar. Os três gols construídos no primeiro tempo nasceram exatamente desse cenário: pressão na saída de bola, recuperação rápida da posse e ataques verticais antes que a defesa pudesse se reorganizar.

Domínio total das ações

Durante os primeiros vinte minutos, o Brasil teve iniciativa, mas ainda esbarrava em certa ansiedade. As duas melhores finalizações haviam saído dos pés de Vinícius Júnior, ambas bloqueadas pela defesa haitiana. Raphinha perdeu outras duas chances e acabou saindo contundido, numa noite infeliz. A partida mudou aos 22 minutos. Após uma roubada de bola no campo ofensivo, Bruno Guimarães participou da construção da jogada e encontrou Vinícius Júnior. O camisa 7 acelerou e serviu Matheus Cunha, que abriu o placar e, junto com ele, as portas para uma noite muito mais tranquila.

O gol teve efeito quase terapêutico. O Brasil ganhou confiança, aumentou a intensidade da pressão e passou a sufocar o adversário. Aos 35 minutos, Lucas Paquetá desarmou Casimir no meio-campo e acionou Vini. O atacante encontrou novamente Matheus Cunha, que finalizou com precisão para marcar seu segundo gol na partida.

Já nos acréscimos, surgiu o lance mais bonito da etapa inicial. Paquetá recebeu no círculo central, girou sobre a marcação e executou um lançamento preciso para Vini Júnior. O atacante dominou em velocidade e finalizou para marcar seu segundo gol nesta Copa do Mundo, fechando o primeiro tempo em 3 a 0.

Brasil Com um gol e uma assistência, Vinícius Júnior mostra o seu repertório ofensivo e é eleito melhor da partida
Com um gol e uma assistência, Vinícius Júnior mostra o seu repertório ofensivo e é eleito melhor da partida / CBF

Brasil dosa energia

Se o resultado parcial ainda não permitia decretar o fim das dúvidas que cercam a seleção brasileira, ao menos oferecia uma evidência importante: quando consegue executar a pressão alta imaginada por Ancelotti e acelerar seus homens de frente em campo aberto, o Brasil se aproxima muito mais da equipe que sua torcida espera ver na busca pelo hexacampeonato.

No segundo tempo, Brasil diminuiu o ritmo e permitiu até um certo equilíbrio. O Haiti foi tomando coragem e chegou a assustar aos 15 minutos. Bellegarde bateu escanteio, Adé se antecipou a Marquinhos, cabeceou firme, e Alisson fez grande defesa! Logo depois, aos 18, Ancelotti decidiu enfim ceder aos apelos da torcida e botou Endrick em campo, no lugar de Matheus Cunha. Junto, também entrou Martinelli, no lugar de Paquetá. Mesmo com a vitória garantida, era importante demais ampliar a contagem para criar um saldo de gols confortável.

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Aos 22 minutos, quase um golaço, com ajeitada de calcanhar de Vini para Martinelli, que chutou no travessão. Aos 32 minutos, Endrick deixou sua marca de artilheiro, mas o gol foi anulado por conta de um impedimento no limite. Poderia ter sido melhor? Sim. Mas, pelo contexto da semana, não dá para reclamar. O melhor a fazer é agradecer que o Haiti tenha cruzado o caminho do Brasil mais uma vez.

 

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