A data-Fifa abriu uma janela rara no calendário nacional: por pouco mais de duas semanas, a maioria dos clubes que disputam o Campeonato Brasileiro ficará sem jogos. Parte dos principais jogadores, porém, não terá descanso. O Brasileirão cedeu 40 atletas a 11 seleções, espalhados por 15 dos 20 clubes da elite. Ao mesmo tempo, boa parte dos jogadores que ficaram ganhou três, quatro ou até mais dias de folga antes da retomada da reta final.

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O dado ajuda a medir o grau de internacionalização do campeonato. Nas primeiras listas, o Palmeiras liderava com sete convocados, seguido pelo Flamengo, com seis. Nesta terça-feira, houve uma troca que preservou o total de 40: Gonzalo Plata foi cortado pelo Equador por lesão, enquanto Emiliano Martínez, do Palmeiras, foi chamado pelo Uruguai para substituir Federico Valverde. Assim, o Verdão passou a ter oito jogadores a serviço de seleções, e o Flamengo, cinco.

Brasileirão Danilo Flamengo
Danilo durante treino no Ninho do Urubu nesta terça-feira; Rubro-Negro vai ter menos folga nesta data-Fifa / Flamengo

Legião estrangeira

A distribuição chama atenção porque não se limita às seleções tradicionais da América do Sul. Além de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Colômbia, Equador, Bolívia, Peru e Venezuela, a lista inclui Camarões e Cabo Verde. Entre os sul-americanos, apenas o Chile não convocou jogadores que atuam na Série A. Essa dimensão internacional, no entanto, cria um contraste. Para quem não foi chamado, a data-Fifa virou uma oportunidade de recuperação que não existe em outros momentos da temporada. Depois de meses de viagens, mata-matas e jogos em intervalos curtos, vários clubes optaram por começar a pausa sem bola, academia ou concentração.

O Palmeiras é um dos exemplos. Envolvido nas semifinais da Libertadores e da Copa do Brasil e segundo colocado no Brasileirão, o técnico Abel Ferreira deu quatro dias de folga ao elenco e marcou a reapresentação para sexta-feira. A comissão técnica considera que o time não apresenta queda física relevante, mas identifica desgaste mental. Após a partida contra o Grêmio, em Porto Alegre, no último domingo, Andreas Pereira resumiu a necessidade de “recuperar as pernas” antes de um trecho em que o clube projeta até 16 partidas decisivas entre as três competições.

Estratégia quase geral

A lógica se repetiu em diferentes contextos. O Atlético-MG também liberou os jogadores por quatro dias. Eduardo Domínguez justificou a decisão pela sequência de oito semanas com mata-matas, viagens e carga emocional elevada. O Coritiba, mesmo vindo de goleada por 5 a 0 para o Vasco, fez opção semelhante: quatro dias de descanso antes de iniciar a preparação para as dez últimas rodadas. Athletico-PR, Botafogo e Mirassol também usaram o início da paralisação para tirar os jogadores da rotina. O Athletico só retoma as atividades na sexta-feira. O Botafogo concedeu três dias antes de Tite começar um período mais longo de ajustes, e o Mirassol fez o mesmo após vencer o próprio Botafogo.

No Grêmio, Renato Portaluppi foi na direção contrária, mas nem tanto. Encontrou uma programação com cinco dias de folga, mas reduziu para três por considerar que a equipe precisa aproveitar a pausa para corrigir problemas na luta contra o rebaixamento. O treinador também programou atividades em dois períodos, deixando claro que descanso e preparação precisam dividir espaço antes das dez rodadas decisivas.

Volta ao batente

Até os clubes que optaram por descanso menor expõem a raridade do momento. O São Paulo deu dois dias de folga à maior parte do elenco, preservando a rotina de trabalho apenas para jogadores em recuperação. O Flamengo descansou na segunda-feira e voltou ao Ninho do Urubu na terça; entre os grandes, é um dos exemplos de programação mais curta neste início de data-Fifa.

O cenário revela duas realidades simultâneas. De um lado, o Brasil se tornou fornecedor relevante de jogadores para seleções de diferentes países, sinal de elencos cada vez mais internacionalizados. De outro, o mesmo calendário que expõe esses atletas a viagens intercontinentais oferece aos que ficam uma espécie de ‘pit stop’ antes das dez rodadas finais e os mata-matas, para os clubes envolvidos na Copa do Brasil, Copa Libertadores e Copa Sul-Americana.

Brasileirão Abel Ferreira
Na luta por títulos em três frentes, Abel Ferreiro vê no descanso uma arma para preparar o elenco / Palmeiras

Há ainda um efeito esportivo difícil de ignorar. Nem todos voltarão da pausa nas mesmas condições. Alguns clubes terão quase todo o elenco descansado e duas semanas para treinar. Outros trabalharão desfalcados por cinco, seis ou oito convocados. Por isso, a data-Fifa pode pesar muito além das seleções. A oportunidade para recuperar pernas e cabeça pode ser tão importante quanto corrigir um sistema defensivo ou ajustar uma escalação.

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Quando a bola voltar a rolar, a pausa terá produzido duas histórias diferentes. Para 40 jogadores, foram viagens, amistosos e compromissos internacionais. Para muitos dos que ficaram, foi o raro direito de se afastar por alguns dias de uma temporada que, a partir de outubro, volta a acelerar sem margem para descanso.

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