Treinadores de norte a sul do país têm na ponta da língua a desculpa-padrão para justificar o mau futebol das equipes que dirigem: falta tempo para treinar, reflexo da maratona de jogos e do acúmulo de competições a que os clubes brasileiros são submetidos na temporada. Em tese, todos reclamam com razão, pois o físico dos atletas tem limites que nem sempre são respeitados pelo calendário maluco do futebol brasileiro.nO que não combina com a teoria do discurso é a prática do dia a dia, já que quase todos os clubes decidiram conceder folgas aos jogadores nesse intervalo de quase 20 dias sem jogos da chamada janela da data-Fifa, reservada para os amistosos da seleção na Austrália e na Índia.
Vejamos o caso do Corinthians, para ficar apenas num exemplo mais próximo. O clube está em crise técnica, administrativa e financeira. Atolado em dívidas e convivendo com três transfer bans que impedem o registro de novos jogadores, o time está com um pé na porta da zona de rebaixamento, depois de seis derrotas seguidas no Brasileirão. Tem a pior campanha do returno, com cinco pontos ganhos em nove jogos, e vem de duas eliminações recentes, na Copa do Brasil, para o Internacional, e na Libertadores, diante do Estudiantes.

Mesmo nesse cenário de terra arrasada, o técnico Fernando Diniz concedeu quatro dias de folga ao elenco num período que deveria ser potencializado para focar no trabalho necessário para tirar o time desse atoleiro. É evidente que todo trabalhador precisa de folgas como parte integrante de sua jornada de trabalho. O descanso programado faz parte do bem-estar de qualquer profissional. Mas a questão do Corinthians, agora, é eleger prioridades.
Como explicar para a torcida?
O time vive um momento atípico, longe do que seria a normalidade, e não seria absurdo considerar a redução das folgas como uma excepcionalidade pontual, nessa hora em que todos deveriam fazer um sacrifício extra para tirar o clube do buraco. Como explicar para a torcida, que já perdeu a paciência com a sequência de maus resultados, que dar quatro dias de folga trará benefícios ao trabalho que será realizado durante a parada da data-Fifa?
Ter os jogadores trabalhando no CT ao longo de todo o intervalo da paralisação do campeonato não significa impor a eles jornadas desgastantes nos aspectos físico e emocional. Mas tê-los concentrados e comprometidos com a urgência do momento seria fundamental para rever processos internos, corrigir questões táticas, aprimorar fundamentos técnicos, recuperar fisicamente os atletas mais desgastados, controlar a alimentação, aplicar tratamentos médicos supervisionados e trabalhar uma série de outros aspectos. Enfim, não é necessário levar os jogadores à exaustão física e emocional, mas dar a eles a responsabilidade exigida pelo momento.
Parada da Copa do Mundo
Depois não adianta reclamar que os resultados não apareceram porque faltou tempo para treinar. Até porque, neste ano, os jogadores já tiveram férias no meio da temporada e puderam se dedicar a uma rara pré-temporada em meio às competições, por causa da parada de quase dois meses para a Copa do Mundo. A hora agora é ter em mente que o ano está acabando e que o Corinthians tem pela frente um desafio enorme: escapar do rebaixamento. Não há mais competições encavaladas. Faltam dez jogos para encerrar o ano. Não seria o caso de concentrar a energia nesses quase 20 dias de data-Fifa, aprimorar os treinos e deixar para dar descanso a um ou outro mais desgastado nas rodadas finais, quando o clube já possa ter atingido a margem mínima de segurança contra o rebaixamento?
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A sequência de jogos após a data-Fifa é crucial para o Corinthians não entrar no Z4. Os duelos com o Internacional, no Sul, e com o Palmeiras, no campo do inimigo, são terrivelmente difíceis e perigosos. Em ambos, o Corinthians não é favorito. E, no caso de mais duas derrotas seguidas, não restará pedra sobre pedra. Assim, sem ignorar o direito de descanso dos trabalhadores, é difícil entender a decisão de conceder quatro dias de folga. O Corinthians vive sua pior sequência no campeonato, está na lanterna do returno e vem de seis derrotas seguidas no Brasileirão. O próprio Diniz reconheceu que o período recente representa um dos momentos mais difíceis de sua carreira.
O tempo dirá
O tempo dirá se a comissão técnica acertou ao preservar o elenco ou se subestimou o risco de um rebaixamento que, hoje, deixou de ser uma ameaça distante para se transformar numa preocupação real.





