Há uma diferença enorme entre provocar o adversário e desrespeitá-lo. Entre a irreverência de uma comemoração e a violência de uma reação. Entre a paixão que faz do futebol um espetáculo único e a incapacidade de aceitar que, em algum momento, o outro lado simplesmente foi melhor. O que aconteceu no Barradão, domingo, depois do segundo gol do Bahia no clássico com o Vitória, ultrapassou essa fronteira.

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A cena protagonizada pelo zagueiro Cacá, ao tentar rasgar a camisa de Jean Lucas, não pode ser tratada apenas como mais um episódio folclórico de um Ba-Vi. Tampouco deveria ser reduzida à velha desculpa de que “clássico é assim mesmo”. Não é. Ou, pelo menos, não deveria ser. O Bahia venceu por 2 a 0. Jean Lucas marcou o segundo gol, virou a camisa para mostrar o seu nome à torcida e iniciou a comemoração. Marinho arrancou a camisa das mãos do rival. Na sequência, Cacá pegou a peça e tentou rasgá-la. Raphael Claus interveio e impediu que a situação evoluísse. Cacá e Jean Lucas receberam o cartão amarelo.

Cacã, na contramão do profissionalismo que a profissão exige: Vitória tem o dever de orientar seus jogadores / Divulgação

Claus teve o mérito de perceber que aquilo poderia deixar de ser uma discussão e se transformar em algo muito mais grave. Talvez tenha faltado, entretanto, uma punição proporcional ao gesto de Cacá. Porque há momentos em que a arbitragem também precisa estabelecer limites. E um jogador tentar destruir a camisa de um adversário, em plena comemoração de gol, não pode ser tratado como uma simples manifestação de nervosismo.

Manto sagrado

O problema está implícito na dimensão do que o gesto representa. Camisa, no futebol, é símbolo de identidade e de história. É patrimônio afetivo — aquilo que os torcedores chamam de manto sagrado. Há toda uma liturgia a protegê-la. O jogador pode até considerá-la um objeto material, mas, para quem está do outro lado, ela representa uma instituição, uma paixão. Tentar rasgá-la como resposta à comemoração do oponente é uma demonstração explícita de intolerância diante da derrota.

Cacá também já desrespeitou a mídia esportiva quando vestia a camisa do Corinthians / Divulgação

E é aí que mora o perigo. Porque o futebol é um jogo de emoções extremas. Clássicos potencializam tudo: adrenalina, provocação, raiva, euforia e frustração. Um gol do rival pode produzir um curto-circuito emocional. Mas o profissionalismo existe para impedir que o impulso tome conta da razão. Se não houver esse freio, uma camisa arrancada pode virar uma guerra. A agressão pode envolver jogadores dos dois times, reservas, comissões técnicas e, dependendo do ambiente, os torcedores rivais.

Risco de tragédia

Quantas tragédias do futebol começaram com muito menos? Por isso, é perigoso romantizar esse tipo de comportamento como “coisa de clássico”. Rivalidade não é licença para perder a educação. Paixão não é salvo-conduto para a violência. Competitividade não elimina o respeito. O futebol precisa preservar aquilo que o torna diferente de uma briga de rua: a capacidade de competir ferozmente sem transformar o rival em inimigo.

E há um detalhe preocupante nessa história. O mundo vive a era da chamada “farmada de aura”, da provocação fabricada para produzir engajamento, likes, compartilhamentos e aprovação instantânea das torcidas. Jogadores, clubes e torcedores muitas vezes parecem disputar não apenas o jogo, mas também quem será capaz de produzir o meme mais agressivo depois dele. Cacá e Marinho, nesse episódio, parecem ter entrado nessa lógica de transformar o campo em palco para uma demonstração de valentia diante da sua torcida. Mas valentia de ocasião é covardia.

Bahia errou no meme

O Bahia poderia ter escolhido outro caminho para fazer o contraponto a esse discurso de ódio. Mas em vez de um posicionamento institucional mais firme sobre o episódio, preferiu a ironia. Nesta segunda-feira, publicou, em parceria com a Puma, uma provocação sobre a resistência do tecido da camisa tricolor: “Tentaram, mas a camisa não rasgou”. É compreensível a provocação de quem venceu o clássico. Faz parte do jogo. Mas até os vencedores precisam saber quando uma situação merece menos deboche e mais responsabilidade.

O futebol brasileiro já tem violência demais nas arquibancadas. Já tem ódio demais nas redes sociais e torcedor transformando adversário em inimigo. Não precisa que seus protagonistas alimentem ainda mais essa fogueira. E Cacá não pode alegar que se trata de um episódio isolado. Em 2024, quando ainda defendia o Corinthians, o zagueiro protagonizou outro caso de péssimo gosto ao atacar a imprensa depois da vitória sobre o Criciúma. Na zona mista, disparou contra os jornalistas: “Pau no cu da mídia. Vai, Corinthians”. Depois pediu desculpas e afirmou que estava de cabeça quente.

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Meses mais tarde, na despedida do Corinthians da Neo Química Arena naquela temporada, voltou a exibir uma faixa com a mesma frase durante a comemoração da vitória por 3 a 0 sobre o Bahia. Não se trata, portanto, de condenar alguém por uma frase ou por um gesto isolado. Trata-se de observar um padrão de comportamento que deveria merecer reflexão. Se o futebol profissional pretende cobrar respeito das torcidas, precisa começar impondo limites a seus próprios protagonistas. Se quer combater a violência nas arquibancadas, não pode naturalizar gestos que, dentro do campo, flertam com discursos de ódio e intolerância. E se pretende ensinar crianças a amar o esporte, precisa aprender que perder faz parte dele.

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