A goleada do Santos por 4 a 1 sobre a Universidad Central da Venezuela, na noite desta terça-feira, no estádio Misael Delgado, em Valencia, vale muito mais do que a enorme vantagem construída no playoff das oitavas de final da Copa Sul-Americana. Ela representa um raro momento de respiro para um clube que passou os últimos meses sufocado por problemas financeiros, instabilidade política e resultados decepcionantes, incluindo derrota no primeiro jogo do Brasileirão após a parada da Copa, semana passada.
O placar praticamente elimina qualquer suspense para a partida de volta, na próxima terça-feira, às 21h30 (horário de Brasília) na Vila Belmiro. O Santos pode até perder por dois gols de diferença e seguirá vivo no torneio. Confirmando a classificação, enfrentará o Macará, do Equador, em busca de uma vaga nas quartas de final.

Neymar na mesa de pôquer
Enquanto o elenco santista fazia sua parte para afastar a crise em um gramado castigado da cidade de Valencia (o jogo não foi em Caracas por causa dos impactos sofridos pela capital no terremoto recente), seu principal jogador vivia uma realidade completamente diferente. Neymar, segundo a versão oficial, preservado por opção da comissão técnica após o retorno da Copa do Mundo — sequer foi relacionado para a viagem. Em vez de acompanhar os companheiros na Venezuela, apareceu em São Paulo disputando mais uma etapa do BSOP Winter, um dos maiores torneios de pôquer do país. Os vídeos divulgados pelo próprio evento anunciando sua chegada rapidamente ganharam repercussão nas redes sociais.
O contraste fala por si. Não há qualquer irregularidade na decisão do clube de preservar o camisa 10, nem no fato de o jogador utilizar sua folga da maneira que bem entender. Mas a imagem inevitavelmente produz desconforto. Enquanto um grupo tentava salvar uma temporada ameaçada pelo caos, o maior ídolo e atleta mais bem remunerado do elenco aparecia sorrindo diante das mesas de cartas.
Também pesa o fato de que Neymar continua sendo muito mais promessa do que realidade neste retorno ao Santos. Dos 36 jogos da equipe em 2026, participou de apenas 15. Na Sul-Americana, atuou em seis partidas, sendo titular em somente três. Seu protagonismo, até agora, existe muito mais pelo tamanho do seu nome do que por sua presença dentro de campo.
Goleada animadora
Sem ele, outros jogadores assumiram a responsabilidade. O início da partida foi equilibrado. A Universidad Central tentou explorar as dificuldades santistas na saída de bola e concentrou suas ações ofensivas pelo lado esquerdo, sempre procurando o colombiano Edwin Mosquera. Durante alguns minutos, o Santos encontrou dificuldades para controlar o jogo. Mas a diferença técnica entre as equipes apareceu naturalmente.
Com maior posse de bola, o time de Cuca passou a empurrar os venezuelanos para seu próprio campo. Encontrava dificuldades diante da defesa fechada, é verdade, mas criava as melhores oportunidades. Reclamou de um pênalti sobre Barreal, viu Thaciano desperdiçar uma chance inacreditável e, finalmente, abriu o placar quando Gabriel Menino finalizou; a bola sobrou na área, e Gabriel Bontempo apareceu bem colocado para completar para as redes.
No segundo tempo, o roteiro tornou-se ainda mais favorável ao Santos. Obrigada a sair para o jogo, a equipe venezuelana ofereceu os espaços que havia negado durante quase toda a etapa inicial. Bastaram doze minutos para o Peixe transformar superioridade em tranquilidade. Oliva lançou com precisão, Gabriel Menino dominou na área e finalizou de pé esquerdo para marcar o segundo gol.
Sai, zica!
Foi mais uma atuação que confirma a evolução de Gabriel Menino atuando definitivamente como lateral-direito. Além da assistência indireta no primeiro gol e do gol marcado, participou intensamente da construção ofensiva e mostrou, mais uma vez, que sua escolha por fixar a carreira numa posição historicamente carente no futebol brasileiro talvez tenha sido uma das decisões mais inteligentes de sua trajetória.
A noite ainda reservava um prêmio para quem mais precisava dele. Thaciano vinha convivendo com um jejum de dez partidas sem balançar as redes. Seu último gol havia sido marcado em 2 de abril, diante do Remo. Depois de desperdiçar oportunidades ao longo da partida, finalmente desencantou ao marcar o terceiro gol santista. Na comemoração, fez o tradicional gesto de quem tira a zica do corpo para exorcizar a má fase que o perseguia. Ainda deu tempo de Roni marcar o quarto gol, aos 38 minutos. E a noite só não foi perfeita como um royal straight flush porque, num vacilo de Moisés, o time venezuelano diminuiu aos 41 minutos com Maicol Ruiz.

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Era impossível não perceber o peso que saiu de seus ombros. Ao apito final, o Santos deixou Valencia levando muito mais do que a vitória. Em meio a tantos problemas, o time deu as cartas do jogo e finalmente encontrou uma noite para respirar. Ainda não foi um “all in”, mas já deu um alívio.





