Há noites em que um número ajuda a contar muito mais do que uma partida. Para Gabigol, a desta quinta-feira, na Vila Belmiro, entrou nessa categoria. O atacante marcou o 100º gol com a camisa do Santos, teve outros dois anulados e foi o personagem central da vitória por 2 a 1, de virada, sobre o Macará, pelas oitavas de final da Copa Sul-Americana. Willian Arão completou a reação no segundo tempo e colocou o time da Vila em vantagem para o duelo de volta, na próxima quinta-feira, no Equador.
O roteiro começou bem diferente daquele que a torcida imaginava. Aos cinco minutos, numa saída ruim do Santos, Mateo Viera cruzou pela direita e Franco Posse se antecipou para abrir o placar. Era o tipo de golpe capaz de transformar a Vila em caldeirão contra o próprio time. Ainda mais para uma equipe que vinha pressionada pelos resultados recentes e pela volta à zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro.

Gabigol centenário
Mas a arquibancada escolheu outro caminho. Em vez da vaia imediata, veio um velho refrão carregado de memória e identidade: “O Santos é o time da virada, o Santos é o time do amor”. A resposta não resolveu os problemas da equipe de Cuca por encanto, mas mudou a atmosfera. O time passou a perseguir o empate sob incentivo, não sob desconfiança. E foi a dupla que mais simboliza a expectativa santista que encontrou o caminho.
Aos 44 minutos, Neymar recebeu e, de primeira, enxergou a movimentação de Gabigol. O passe rompeu a defesa equatoriana e deixou o camisa 9 em condição de finalizar de esquerda. A bola entrou, a Vila explodiu e o gol carregou um peso muito maior do que o empate. Era o centésimo de Gabriel Barbosa pelo clube que o revelou.
A marca foi alcançada no 244º jogo de Gabigol pelo Santos. Antes do retorno em 2026, suas duas primeiras etapas no clube somaram 210 partidas e 84 gols: foram 57 em 157 jogos entre 2013 e 2016 e outros 27 no período de 2018. De volta nesta temporada, o atacante chegou agora a 16 gols em 34 jogos. Mais do que uma estatística redonda, o centésimo reafirma uma relação que atravessou saídas, retornos, títulos, frustrações e diferentes versões do próprio jogador.
E Gabigol parecia disposto a transformar a noite histórica em algo ainda maior. No segundo tempo, balançou a rede mais duas vezes. Em ambas, porém, a arbitragem apontou impedimento após a checagem do VAR. O placar continuou em 1 a 1, mas a sensação era de que o segundo gol santista estava amadurecendo. O atacante, que chegara ao confronto depois de três partidas sem marcar, voltou a ocupar o centro da cena quando o Santos mais precisava de uma referência ofensiva.
Virada do alívio
A virada acabou vindo de um personagem improvável — e também carregado de contexto. Aos 31, após a cobrança de escanteio de Neymar, Willian Arão apareceu para marcar o segundo gol e aliviar a tensão. O volante vinha de dias turbulentos na relação com Cuca. Após a vitória sobre a Universidad Central, pela própria Sul-Americana, ele se irritou com a substituição no intervalo, discutiu com o treinador e deixou o estádio antes do fim da partida. Houve reconciliação no dia seguinte, mas o episódio expôs o desgaste. Contra o Macará, utilizado na defesa, Arão respondeu dentro de campo com o gol que decidiu o jogo.
Foi, portanto, uma vitória feita de símbolos. Gabigol chegou ao número que perseguia desde o retorno. Neymar participou de maneira decisiva com as duas assistências com a a assinatura técnica de quem ainda pode mudar uma partida em um toque. Arão, depois de um atrito público com o treinador, tornou-se o homem da virada. E a torcida, depois de assistir ao adversário marcar com apenas cinco minutos, preferiu empurrar antes de cobrar.

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Isso não significa que os problemas desapareceram. O Santos ainda permitiu que um rival encontrasse espaços, voltou a mostrar fragilidade defensiva e precisou correr atrás do resultado em casa. A Sul-Americana tampouco oferece tempo para euforia. A vantagem construída na Vila é importante e basta um empate para levar a vaga às quartas de final, no jogo de volta, na próxima quinta-feira, em Ambato, no Equador.
Por enquanto, contudo, a noite serviu para trocar ansiedade por algum alívio. E talvez nenhuma imagem represente melhor isso do que Gabigol comemorando o centésimo depois de receber de Neymar, enquanto a Vila repetia que aquele era o time da virada. O canto virou roteiro. O roteiro virou resultado. E, numa temporada em que quase tudo parece exigir esforço extra do Santos, até a mágica precisou esperar 90 minutos para acontecer.





