A torcida do Corinthians amanheceu sonhando com a contratação de Rony, mas não deveria se empolgar muito. O responsável pela gestão do departamento de futebol corintiano mandou avisar que não tem dinheiro para fazer negócios de alto custo. A declaração pública de Marcelo Paz nesta semana cumpre um papel raro no futebol brasileiro: o de dizer a verdade sem maquiagens.

Siga The Football

Ao admitir que o Corinthians não tem hoje poderio econômico para disputar o mercado de transferências no mesmo patamar de clubes como Flamengo, Palmeiras e Cruzeiro, o novo executivo de futebol do clube faz algo que quase ninguém costuma fazer nesse ambiente: alinha discurso à realidade.

Corintiano terá de se contentar com anos de menos dinheiro e contratações e mais trabalho e suor em campo / Corinthians

É uma fala que pode soar dura, até indigesta para parte da torcida, mas que merece elogio justamente por isso. Em vez de alimentar ilusões, Paz optou pela franqueza. Reconheceu que a história e a grandeza do Corinthians não pagam boletos, não bancam taxas de transferência e tampouco compensam um passivo que se arrasta há anos e já se aproxima da casa dos R$ 3 bilhões. A grandeza simbólica segue intacta, mas a capacidade de investimento, não.

Gestão de Marcelo Paz

A partir desse diagnóstico, o posicionamento do clube no mercado fica claro — e é coerente. O Corinthians deixa de se apresentar como um player de primeira grandeza e passa a atuar dentro de previsões orçamentárias reais, mirando jogadores sem custo de transferência, atletas em fim de contrato, nomes livres no mercado ou que possam ser viabilizados por empréstimo. Simples assim. Não há espaço para disputas inflacionadas nem para leilões emocionais. Há limite de caixa, e ele precisa ser respeitado.

Esse cenário, naturalmente, impõe restrições também ao trabalho do técnico Dorival Júnior. Na temporada passada, ele contou com um único reforço mais experiente, Vitinho, e precisou completar o elenco apostando em jovens da base, ainda em formação, mas com potencial de crescimento. Volantes, zagueiros, meias e atacantes que carregam talento bruto, mas que exigem tempo, ambiente e paciência para responder em alto nível. É um caminho legítimo — e, em muitos casos, inevitável — para quem não pode gastar.

Marcelo Paz, novo diretor do Corinthians, já entendeu que não há dinheiro para nada no clube / Corinthians

Marcelo Paz chega ao Corinthians com esse histórico. Trabalhou durante anos no Fortaleza, um clube de orçamento bem inferior, acostumado a sobreviver e competir dentro de severas limitações financeiras. Lá, aprendeu a garimpar mercado, a encontrar valor onde quase ninguém olha e a transformar a organização em vantagem competitiva. Essa experiência, agora, é um trunfo importante num clube que precisa fazer omelete sem ovos.

Apoio na Fiel

O ponto sensível está fora do campo. Resta saber se a torcida vai se conformar com esse posicionamento declarado, com a ideia de que não dá para sonhar alto no mercado — ao menos por enquanto. No ano passado, a fórmula funcionou e terminou com a conquista de dois títulos, o que ajudou a legitimar escolhas mais austeras. Mas o futebol não opera por garantias. O que deu certo uma vez não necessariamente se repete na temporada seguinte.

SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
Threads
Tik Tok

O Corinthians entra, portanto, num dilema claro: ou aceita o pragmatismo como ferramenta de reconstrução, ou seguirá prisioneiro da própria grandeza passada, cobrando comportamentos financeiros que o presente já não sustenta. Marcelo Paz escolheu o caminho mais honesto. Agora, o desafio será fazer com que essa honestidade se traduza em competitividade — e que a torcida compreenda que, neste momento, sonhar menos no mercado pode ser a única forma de sobreviver para sonhar mais adiante.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui