O falecido Antônio Franco de Oliveira, mais conhecido como Neném Prancha, roupeiro e massagista do Botafogo nos anos 1960/70, ficou conhecido como o maior “filósofo” do futebol brasileiro — não por seus estudos, que eram parcos, mas pela genialidade com que cunhou frases e pensamentos que se eternizaram. A mais famosa das suas criações é a que consagra uma verdade insofismável no mundo da bola: “pênalti é uma coisa tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube”. Quem não conheceu seu Neném, mas viu o incrível roteiro da desgraça que se abateu sobre Memphis Depay no último minuto do duelo com o Estudiantes, em Itaquera, nesta quarta, agora pode medir a dimensão e a profundidade dessa frase.
O Corinthians perdeu o pênalti da redenção e ganhou um grande problema: o que será de Memphis daqui para frente? Nem o próprio holandês tem essa resposta, mas é fácil supor que ele sai da galeria dos heróis para ser jogado no poço escuro reservado aos vilões. Com certeza a idolatria acabou e vai ser custoso para ele recuperar parte do prestígio que tinha, prestígio esse que provocou um inédito movimento da torcida exigindo que a diretoria renovasse o contrato do jogador, mesmo sabendo que aquela era uma operação comercial inviável, que faria o clube se atolar ainda mais no lodaçal das dívidas acumuladas há vários anos de desmandos e desencontros.

O mesmo Memphis que parecia a tábua de salvação das agonias da torcida agora representa o drama de uma eliminação difícil de aceitar na Libertadores. Era só bater aquele pênalti, fazer o gol do empate e depois deixar a decisão nas mãos de Hugo Souza: um roteiro que, mesmo sofrido, já faz parte do DNA corintiano, dessa gente que cresce na adversidade e gosta de obter suas maiores conquistas quando tudo parece conspirar contra.
O pênalti era dele
Do alto de sua representatividade para o grupo de jogadores e para a torcida, Memphis assumiu a responsabilidade. Foi corajoso, é verdade. Mesmo num ambiente carregado de tensão, tentou fingir tranquilidade, botou a bola debaixo do braço e decretou: ‘deixa comigo, eu bato!‘ Obviamente, é preciso ter coragem para assumir esse papel num momento tão crucial de uma partida decisiva. Mas quem ali, além de Memphis, poderia se arvorar dessa responsabilidade? Não tinha como não ser dele a obrigação de pegar a bola, botar na cal e bater o pênalti para o delírio da Fiel.
Chutou como um beque de fazenda
O que não se imaginava é que ele pudesse chutar aquela bola como um beque de fazenda cobrando um tiro de meta, quando a ocasião exigia destreza, talento, habilidade e até uma certa sutileza para deixar o goleiro cair para um lado e empurrar a bola para o outro. No limite, sob tensão, o mais indicado era arriscar uma bola de segurança no meio do gol, pois em 99,9% das cobranças no mundo inteiro os goleiros arriscam e escolhem um canto. Quase nunca se vê o goleiro ficar parado no meio do gol esperando um chute ali, em cima dele.

Memphis, no entanto, preferiu bater com força, muita força, no ângulo, uma cobrança arriscada demais mesmo para quem é o artilheiro máximo da seleção da Holanda, para quem já disputou Copas do Mundo e para quem foi incensado pela torcida a ponto de forçar a diretoria a renovar o seu contrato sem saber como vai poder honrá-lo. Memphis estava ali pronto para viver mais um capítulo da saga de herói do povo sofrido corintiano. Era a chance perfeita para mostrar o quão dependente dele o Corinthians é dentro de campo. Era o take perfeito para o próximo clipe destinado às redes sociais, sem ter de “botar fogo” no Parque São Jorge para ganhar mais likes. Todo o cenário estava armado para Memphis ser Memphis — mas o destino lhe pregou uma peça e o fez Alexandre Pato!
Nem um jogador com o tamanho de Memphis passará imune a esse episódio. Não há via possível para que ele seja perdoado por ser quem é. Como Pato, que chegou até a ser agredido por colegas de time naquele pênalti contra Dida, Memphis amanhece nesta quinta-feira marcado com uma cruz na testa, como alguém condenado para um sacrifício próximo. Não haverá perdão para ele, mesmo que até o fim do seu contrato ele devolva ao corintiano a alegria de vitórias e o prazer das conquistas.
Memphis, Rivellino, Edilson…
O Corinthians tem uma particularidade que faz dele um time diferente: a relação da torcida com seus ídolos é guiada por um sentimento extremista, que vai da veneração ao ódio. Visceral. A história está repleta de exemplos. Rivellino, o Reizinho do Parque, saiu humilhado do clube após a perda do título Paulista de 1974 para o Palmeiras, quando o Corinthians vivia o drama da fila de quase duas décadas. Marcelinho Carioca sofreu demais pelo pênalti perdido na disputa com o Palmeiras numa fase decisiva da Libertadores. Edilson teve de sair pela porta dos fundos… Não há meios-termos para o bando de loucos. Como diz um coro da torcida, é faca nos dentes, é sangue nos olhos, é tapa na orelha…
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Memphis terá de ter estrutura psicológica para suportar o tsunami que vai se abater sobre ele. Agora qualquer erro banal será potencializado por causa da memória desse maldito pênalti. Será que ele vai suportar? Será que a diretoria vai ter sustentação para seguir honrando um contrato que paga mais de R$ 2 milhões por mês de salário para o craque que jogou na Lua a bola do jogo do ano? Será que Diniz permitirá que Memphis siga sendo um dos cobradores oficiais de pênalti do Corinthians? Será que Memphis seguirá com passaporte liberado para andar nas quebradas dos manos corintianos, sendo recebido com tapete vermelho, uma Kaiser de litrão e uma batalha de rimas numa roda de rap?
Difícil prever o futuro, mas é inegável que a vida de rei que Memphis vivia no Corinthians não existe mais. Seja bem-vindo ao inferno corintiano, Memphis Depay!





