A demissão de Filipe Luís na calada da madrugada desta terça-feira não foi apenas inesperada. Foi covarde. Covarde no tempo, na forma e no gesto final de expor um profissional que ainda estava de pé à beira do campo, trabalhando, vencendo e planejando o futuro de um time que, naquela mesma noite, tinha acabado de atropelar o
Madureira por 8 a 0 na semifinal do Cariocão-26.

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Existe algo profundamente errado quando um treinador sai de uma vitória dessas para uma demissão na madrugada. Trata-se no mínimo de humilhação institucional. É o tipo de decisão que transforma o técnico em figurante de uma história que já estava escrita nos bastidores — enquanto ele ainda acreditava que fazia parte do roteiro.

Presidente Bap, do Fla, já tinha tudo pronto para a demissão de Fiipe Luís e a contratação de Leonardo Jardim / Flamengo

O que mais choca não é a troca de comando. Substituir técnico ao sabor das circunstâncias faz parte da cultura do futebol brasileiro. O que espanta é a maneira como o Flamengo decidiu fazer isso. O treinador vai para a coletiva, fala sobre a final do campeonato, projeta o que vem pela frente, cumpre o papel de quem ainda está no cargo — e, minutos depois, descobre que tudo aquilo já não valia mais nada. Que a decisão estava tomada e ele já era passado antes mesmo de terminar a noite.

Isso não é gestão. É emboscada.

Porque quando um clube anuncia o substituto menos de 12 horas depois, como aconteceu com Leonardo Jardim, a mensagem é óbvia: o movimento já estava armado. O treinador que ainda estava empregado já era, na prática, um técnico demitido sem saber. E aí a demissão deixa de ser uma escolha administrativa e passa a ter cheiro de traição profissional.

E é impossível ignorar o contraste entre o discurso e a prática. O Flamengo gosta de se enxergar — e de dizer em voz alta — que opera em padrão de elite, que se aproximou dos modelos da Premier League, que virou referência de gestão no futebol brasileiro. Há nesse discurso um certo ar de arrogância e prepotência. Financeiramente, talvez seja verdade. Mas gestão de pessoas se mede em momentos como este. E, neste caso, o Flamengo agiu exatamente como aquilo que diz não ser: mais um clube dominado pelo imediatismo, pela pressão externa e necessidade de encontrar um culpado rápido.

Filipe Luís deixou o Flamengo depois de ganhar no ano passado a Libertadores e o Brasileirão / Flamengo

E escolheram Filipe Luís para esse papel. Injustamente. Afinal, estamos falando de um treinador com 101 jogos, 63 vitórias, 23 empates, 15 derrotas, 69,9% de aproveitamento, 183 gols marcados, 68 sofridos e cinco títulos conquistados. Alguém que, há três meses, era celebrado como símbolo de um projeto inovador, disruptivo da lógica dos técnicos de sempre. Um treinador que ganhou os principais troféus recentes e que agora é descartado porque perdeu duas decisões de valor relativo, mas tratadas como obrigatórias por um ambiente cada vez mais intolerante à normalidade do futebol.

Jardim será o nono desde 2020

No fundo, a demissão revela algo maior: a dificuldade crônica do Flamengo em sustentar seus próprios treinadores — mesmo quando eles vencem. Já aconteceu com Rogério Ceni e Dorival Júnior, ambos campeões e, ainda assim, passageiros. Agora acontece de novo. Leonardo Jardim será o nono técnico desde 2020. No mesmo período, o Palmeiras seguiu com apenas um treinador: Abel Ferreira. A diferença entre os dois clubes mais ricos do país não está nas métricas esportivas. Está na cultura.

Bap não é o maquinista?

Nesse enredo de covardia e traição tem ainda o áudio atribuído ao presidente Luiz Eduardo Baptista, comparando a decisão de demitir Filipe Luís à urgência de descer de um trem errado na primeira estação adiante para voltar ao ponto de partida para uma nova viagem. A metáfora é reveladora — mas talvez não do jeito que ele imagina. Porque, se o trem estava errado há tanto tempo, por que deixar o maquinista conduzir até o fim da viagem? Por que expô-lo diante da imprensa e dos torcedores se o destino já estava decidido? E renovar o contrato dele há menos de dois meses? Por que deixá-lo sangrar num coletiva patética?

A resposta é simples e incômoda: porque era mais fácil deixar o técnico ali, absorvendo a pressão, enquanto o clube já preparava o próximo movimento. Mais fácil permitir que ele falasse sobre o futuro sabendo que esse futuro não existia mais. Mais fácil transformá-lo em escudo temporário antes de puxar o gatilho.

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No futebol, decisões duras fazem parte. Covardia, não deveria. E o que aconteceu com Filipe Luís não parece apenas uma troca de comando. Parece um daqueles momentos em que um clube revela, sem perceber, exatamente quem ele é quando a pressão aperta. O episódio mostra o Flamengo, que diante do espelho se vê superior, agindo exatamente como os outros: passional, imediatista e pressionado pelo barulho externo.

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