O São Paulo vive mais um daqueles começos de ano que parecem condenados desde a largada. O chamado inferno astral, agora agravado por uma crise institucional profunda, denúncias graves de má governança, processo de impeachment do ex-presidente Julio Casares e atraso no pagamento de salários.
É nesse cenário que Hernán Crespo tenta conduzir o time — e é também nele que passa a usar as entrevistas como escudo. Resta saber até quando ele vai estar imune. Nas últimas semanas, o treinador argentino tem relativizado os fracassos dentro de campo apontando para feridas que não foram abertas por ele. Em tese, não lhe falta razão ao mencionar o caos fora das quatro linhas. O problema é o tom. Crespo parece menos disposto a assumir responsabilidades esportivas e mais preocupado em se proteger do que vem pela frente. Ao transformar o contexto em argumento recorrente, corre o risco de dar um tiro no próprio pé.

A derrota por 3 a 1 para o Palmeiras, na noite de sábado, em Barueri, escancarou esse desgaste. Ao projetar que o planejamento do São Paulo para o Brasileirão é alcançar 45 pontos e, com isso, escapar do rebaixamento, Crespo mexeu num vespeiro. Sua fala conformista soou frágil, derrotista, desalinhada com a história de um clube seis vezes campeão brasileiro e tricampeão mundial. Além de estar completamente fora de sintonia com o discurso de reconstrução vendido pela nova direção após a gestão trágica de Casares.
Pegou mal a fala de Crespo
Pegou muito mal. Tão mal que o presidente Harry Massis tratou de contestar publicamente a projeção do treinador, afirmando que o São Paulo precisa iniciar o campeonato pensando em disputar uma vaga na Libertadores. O recado foi claro: a régua precisa subir. No dia seguinte, o clube anunciou o ex-lateral Rafinha como novo gerente esportivo. E ele não perdeu tempo. Logo em sua primeira manifestação pública, subiu o tom e deixou explícito que não haverá espaço para acomodação ou discurso de fracassado.
Vamos olhar para frente. O São Paulo é um clube gigante. Esse discurso de perdedor, de fracassado, de medo, não cabe no São Paulo.
Rafinha
A mensagem tem destinatário evidente. Ao avisar que não aceitará “discurso de fracassado”, o novo executivo inaugura sua gestão abrindo uma zona de atrito que precisa ser resolvida rapidamente. Ou Crespo muda o tom ou o clube muda de técnico. Não há meio-termo possível.

Não é razoável — nem aceitável — que, na véspera de um campeonato de 38 rodadas e 114 pontos em disputa, o treinador de um clube com o DNA do São Paulo declare publicamente que ficará satisfeito se o time apenas não cair. Essa matemática dos 45 pontos como meta não fecha com a identidade são-paulina, ainda que o clube atravesse instabilidade política, conviva com dívidas, salários atrasados e apresente um elenco reconhecidamente desequilibrado.
Aliás, cabe justamente ao treinador encontrar caminhos para superar essas adversidades — e não se apegar a elas como salvo-conduto antecipado para justificar um trabalho aquém do que a camisa exige.
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Nesse cenário não será surpresa alguma se o argentino virar mais uma vítima do processo urgente — e ainda inacabado — de reestruturação do São Paulo. De todo modo, este novo capítulo apenas reforça uma certeza incômoda: o ano será longo, duro e cheio de turbulências no Morumbi. O problema é que, ao que tudo indica, a crise ainda está longe do fim.





