O currículo fala por si. Duas Copas do Mundo à frente da seleção brasileira, uma carreira marcada por títulos e trabalhos consistentes, especialmente no Corinthians, onde viveu o auge ao conquistar a Libertadores de forma invicta e, na sequência, o Mundial de Clubes. Era natural, portanto, que a chegada de Tite ao Cruzeiro, anunciada no fim do ano passado, viesse cercada de pompa, circunstância e expectativa.Parecia o encontro ideal entre um técnico consagrado e um clube em clara ascensão, estruturado, ambicioso e disposto a dar um salto definitivo rumo à excelência esportiva.
Mas o futebol, esse velho conhecido das reviravoltas cruéis, tratou de transformar o que soava como conto de fadas em um enredo dramático. Em menos de um mês de trabalho, cinco derrotas. Resultados ruins, desempenho abaixo do esperado e, como consequência quase automática, a desconfiança.
Tite, um técnico de Copa do Mundo, passou a ser tratado como mais um nome descartável na engrenagem impiedosa do imediatismo. Movimentos pedindo sua saída surgiram com rapidez assustadora dem Minas Gerais, como se sua história tivesse sido apagada da noite para o dia.

O tribunal do imediatismo
É perigosa essa lógica de julgamentos precipitados, alimentada pelos ‘tribunais de exceção’ das redes sociais, pelas torcidas organizadas e, não raro, por segmentos da própria imprensa, que há tempos trocaram a imparcialidade pelo clubismo assumido. Não se trata, é importante frisar, de “passar pano” para um início de trabalho ruim — ele é, de fato, ruim. O desempenho não corresponde, as escolhas são questionáveis e os resultados falam alto. Mas há uma diferença enorme entre crítica legítima e execração pública.
Não é razoável que um treinador com o histórico de Tite seja queimado em praça pública sem ter ao menos o tempo mínimo para tentar implantar suas ideias, ajustar o time e mostrar o conhecimento acumulado em décadas de vestiário. O próprio Tite sabe disso. Não se esconde. Na coletiva após a derrota para o Coritiba, dolorida e difícil de explicar, foi honesto ao admitir que não havia muito o que dizer naquele momento. Reconheceu a dívida, aceitou as críticas e indicou que o caminho possível é trabalhar, virar a chave e resistir ao ruído externo.

O problema é que, diferentemente de outros contextos, faltam álibis. Tite tem em mãos um dos melhores elencos do país, reforçado desde sua chegada com jogadores de peso, como Gerson. Não pode alegar escassez técnica. Mais do que isso: assumiu um time que vinha de um trabalho sólido, construído por Leonardo Jardim, responsável por recolocar o Cruzeiro no patamar de concorrente direto de Palmeiras e Flamengo. E, hoje, é inegável dizer: o Cruzeiro de Tite joga pior do que o Cruzeiro de Jardim. Isso incomoda — e precisa incomodar.
Quase foi para o Corinthians
Ainda assim, há uma camada mais profunda nessa reflexão. Ela passa pela trajetória recente do próprio treinador. Não faz tanto tempo que Tite se declarou mentalmente incapaz de seguir sob a pressão do futebol, buscou ajuda médica, se afastou e só decidiu retornar quando se sentiu recuperado.
Vale lembrar que ele esteve muito perto de voltar ao Corinthians, um ambiente afetivo, quase um porto seguro. Tudo estava apalavrado. Mas, na noite anterior ao acerto, não conseguiu dormir, sofreu um pico de ansiedade e precisou ser levado ao hospital. Aquilo foi um sinal claro de que algo ainda precisava ser cuidado.
Limite da desumanidade
Tite não merece reviver esse pesadelo. Nem como profissional nem como ser humano. O futebol pode — e deve — ser exigente, mas não pode ser desumano. Por isso, mais do que nunca, o momento pede equilíbrio. Cobrança, sim. Pressão, dentro do razoável. Execração sumária, não.
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Seria bom para o Cruzeiro, para a torcida e, sobretudo, para o próprio Tite que ele reencontrasse o treinador que sempre foi. Que colocasse o time no rumo das vitórias, não apenas para justificar sua contratação, mas para preservar algo que vale mais do que qualquer resultado: o bem-estar de quem, apesar de todo o currículo, continua sendo vulnerável às mesmas pressões que tornam o futebol tão fascinante quanto cruel.





