Na ZL, Naziazeno desperta antes do sol… O galinheiro da rua de trás abrevia o sono, absolutamente justo para uma vizinhança que rala tanto. Naquela terça-feira, quando pôs os pés no chão frio da meia-água onde mora com a mulher e o filho de quatro meses, já experimentava um cansaço… A sua tristeza tem sempre esse rebate no estômago e no peito: sente dentro de si um oco dolorido, ao mesmo tempo que as feições se lhe repuxam… Lembra do cartão, da fortuna gasta em fraldas, lembra da data de vencimento que se aproxima… E nessa manhã mal iniciada, a impressão da solidão, do abandono…”
Na orla de Miami Beach, Duque sente a água azul turquesa subir até as canelas. Gozou brevemente da mornidão e, quando o mar retrocedia, veio-lhe à memória a professora Lúcia. Anos letivos atrás, em meio ao alarido de crianças socadas numa sala de escola do subúrbio do Rio, Duque fora advertido. “Não vais ser ninguém se continuar assim”, vaticinou a professora Lúcia, aturdida pelo ambiente barulhento, pelo desprezo daqueles em cuja vida ela sonhara fazer diferença. Duque carregou esse ressentimento, em fermentação no peito. Então puxou o celular e, com a eloquência que lhe consagrou como influencer de apostas, deu o texto: “Eu estou aqui, no mar azulzinho, limpinho, quentinho, gostosinho mesmo. E tu, professora Lúcia? Onde andas? Em Bangu?” Em seguida deu a odd sobre um jogo da segunda divisão da Croácia.

Na ZL, no quintal ainda úmido do sereno da madrugada, Naziazeno sobe na moto, precocemente exausto… A pressão do capacete não interrompe a angústia dos pensamentos sobre a fatura do cartão, as fraldas, o NAN… Antes de dar a ignição, dá uma espiada no celular… Vê o Duque esculhambar uma professora, não faz muito caso do exibicionismo, da vulgaridade da ostentação, mas algo lhe chama a atenção… Se o Rudes Zagreb vencer o HNK Cibalia por dois gols ou mais, os 100 reais da conta corrente, que devem durar até o fim do mês, com o agravante de estarmos no dia 23, virariam 500… Resolveria a coisa toda.
UMA FEZINHA NA SEGUNDA DIVISÃO DA CROÁCIA
Em Madrid, onde chegara após voo em primeira classe com bilhete comprado no balcão, Duque enxerga a própria pobreza já coberta pela pátina do tempo, embora só de três anos para cá tenha amealhado uma grana grossa para viver assim, feito nababo. Hoje patrocina clubes que, em 2023, assistia pelo gatonet, ao lado do padrasto, bebericando cerveja vagabunda. A caminho do Bernabéu, onde testemunharia o Real Madrid pela Champions, saboreava a glória de ser relevante para milhares de pessoas, algumas incautas. Ao cruzar pela Puerta de Alcalá, ordenou o táxi a parar, desceu, ligou o celular, apontou para o rosto e sentenciou: “O Rudes Zagreb goleia! Vai por mim! Vai na fé!”
ANSIEDADE ENQUANTO ENTREGA COMIDA FRIA
Na Zona Oeste, Naziazeno corria de moto entregando comida fria, insossa e esponjosa aos burgueses com preguiça de cozinhar… Embora evite cálculos de ganho parcial, numa estratégia para empurrar a humilhação para o fim do corre, percebeu ter juntado pouco mais de 30 reais. Os 100 já tinham virado Pix em aposta no Rudes Zagreb, vitória por mais de dois gols de diferença. Era meio dia… O jogo ocorreria em seguida, noite na Croácia, tarde em São Paulo…
Em Madrid, Duque fez uma gritaria danada com o gol dos merengues. Não que goste dos caras, torce para o time de Vallecas. Mas não desperdiça oportunidade de mostrar o quanto viaja, o quanto frequenta lugares exclusivos, o quanto prosperou por mérito próprio ignorando advertências de professoras amargas. Sentia-se bem ao lado daqueles turistas com dinheiro antigo, embora a recíproca, sabe-se bem, o dinheiro não necessariamente compra. Voltou ao hotel, cantarolando mentalmente um refrão do Ferrugem, “por favor, não sai da minha vida nunca mais”, quando o jogo na Croácia já se aproximava do fim. Está tão exultante que não percebeu o vaivém de ratos pelos bueiros espanhóis.
UM GOL NO ÚLTIMO LANCE DA PARTIDA
Na ZL, Naziazeno se curvava com o peso dos quilômetros rodados quando passou pela rua de trás, aquela do galinheiro… Estacionou a moto no quintal, dirigiu-se a passos pesados até a cozinha da meia-água e ali, longe do olhar da mulher, sem visão para o filho apesar do acanhamento da metragem da casa, espiou o celular… Deslizou freneticamente o dedo indicador na tela e descobriu que, no último lance da partida, o HNK Cibalia, que perdia por 2 a 0, descontou. Tem uma vontade de se entregar, naquela luta que vem sustentando, sustentando. Quereria dormir… Aliás, esse frio amargo e triste que lhe vem das vísceras, que lhe sobe de dentro de si, produz-lhe sempre uma sensação de sono, uma necessidade de anulação, de aniquilamento.
Em Brasília, Seu Pereira, dono de casa de apostas, aterrissa de jatinho; o avião é dele. Olha o relógio, à espera de um deputado. Parece que vão a Mônaco.






