O Catar esperou quase quatro anos para trocar a imagem que carregava desde 2022. Naquela Copa, em casa, saiu pela porta dos fundos: três jogos, três derrotas, eliminação precoce e o peso de ter sido o anfitrião que menos competiu dentro de campo. Neste sábado, em Santa Clara, a seleção catari não apagou tudo isso. Não se apaga uma marca histórica em 90 minutos. Mas escreveu, enfim, uma página que pode chamar de sua em uma Copa do Mundo. Contra a favorita Suíça, saiu atrás, lutou até o fim e foi premiada, nos acréscimos, com o gol de empate, por 1 a 1.
O resultado tem valor maior do que a tabela consegue mostrar. Para os suíços, favoritos a terminar em primeiro lugar no Grupo B, o resultado soa como desperdício, tropeço e recado. Para o Catar, vale como afirmação. Foi o primeiro ponto da seleção em Mundiais. Foi também o sinal de que aquela equipe frágil, ansiosa e engolida pelo próprio evento em 2022 voltou ao palco global com outra casca.

Catar mostra valentia
A Suíça parecia controlar a tarde quando Breel Embolo abriu o placar, de pênalti, aos 17min do primeiro tempo. Era o roteiro esperado: uma seleção europeia experiente, acostumada a sobreviver em torneios grandes, contra um adversário que ainda buscava provar que sua presença em 2026 não era apenas consequência do alargamento da Copa. A equipe de Murat Yakin tinha Xhaka, Akanji, Elvedi, Embolo, Rodríguez, jogadores rodados, com corpo e memória de competição. Tinha também a sensação de que a estreia contra o Catar era a partida para assumir o comando da chave.
Mas o futebol costuma punir quem transforma domínio em conforto antes da hora. A Suíça rondou a área, acumulou finalizações, acelerou pelos lados, pressionou nas bolas paradas e teve volume suficiente para matar o jogo. Faltou precisão. Faltou frieza. Faltou transformar superioridade em placar. Aos poucos, o que era controle virou incômodo. O Catar, mesmo sem jogar uma partida brilhante, foi resistindo, respirando e mantendo viva a única coisa que não se pode entregar em uma Copa: acreditar até o final.
A escolha de Julen Lopetegui também ajudou a contar essa história. O treinador deixou Almoez Ali, artilheiro histórico da seleção, no banco, apostou em uma formação mais cautelosa e entregou o protagonismo ofensivo a Akram Afif, o nome mais simbólico do futebol catari nos últimos anos. Afif não teve uma tarde de domínio absoluto, mas carregou a ameaça, deu sentido às transições e lembrou por que esta geração, tão questionada no mundo, já foi capaz de se impor no continente.
É aí que o empate ganha uma camada mais profunda. O Catar de 2026 não nasceu neste sábado. Ele vem de um ciclo de tentativa de reconstrução moral. Depois do fiasco como país-sede, a seleção foi bicampeã da Copa da Ásia, derrotando a Jordânia na final de 2024, com três gols de pênalti de Akram Afif. Depois, sofreu turbulências, trocou comando, oscilou nas Eliminatórias e precisou se agarrar ao jogo contra os Emirados Árabes Unidos para garantir, pela primeira vez, uma vaga em Copa do Mundo pelo caminho da bola, e não pelo direito automático de anfitrião.

Gol com cara de título
Por isso, o gol de Boualem Khoukhi, aos 49 minutos do segundo tempo, não foi apenas um cabeceio. Foi catarse. Homam Ahmed cruzou, Khoukhi atacou a bola como quem atacava um passado inteiro e o Catar encontrou no fim aquilo que lhe faltou em 2022: presença competitiva. O time não saiu de campo como figurante. Saiu como seleção que incomodou, sobreviveu e arrancou algo concreto de uma adversária superior.
Para a Suíça, o empate dói porque altera a temperatura do Grupo B. A estreia já vinha depois do empate entre Canadá e Bósnia e Herzegovina. Com quatro seleções somando um ponto, a chave fica embolada desde o primeiro ato. O que poderia ser um começo confortável virou uma advertência: não há atalho. A Suíça ainda tem elenco, estrutura e futebol para brigar pelo primeiro lugar, mas desperdiçar dois pontos contra o adversário teoricamente mais acessível muda o peso das próximas partidas.
Para o Catar, a noite não transforma a seleção em candidata a surpresa automática. O time ainda sofreu demais, criou pouco e precisará jogar mais com a bola se quiser sonhar com classificação. Mas o ponto conquistado tem força simbólica e prática. Simbólica porque reposiciona o país depois de 2022. Prática porque mantém tudo aberto.
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No fim, o Catar não venceu. Mas fez história. E, para uma seleção que há quatro anos saiu da própria Copa sem um ponto sequer, empatar nos minutos finais contra a Suíça não é pouco. É o começo de uma nova conversa.





