Deu no New York Times, em 2014: “Where Dishonesty Is Best Policy, U.S. Soccer Falls Short”. Com a autoridade de quem avançou ao Book Seven do curso de inglês do Sesc, aliada a um sempre providencial auxílio do Gúgou, traduzi com destemor: “Onde a desonestidade é a melhor política, o futebol americano fica para trás”.

Tudo sobre a Copa do Mundo

Lembro bem. O que o maior jornal do mundo recomendava aos compatriotas escalados para a Copa do Mundo no Brasil é que só pedissem a Deus um pouco de malandragem. Segundo o gringo autor do texto, a retidão de caráter seria um complicador para o futebol de alto rendimento. Nestes choques de corpos impostos pela força física, uma queda fingida soa mais inteligente do que o ímpeto, honroso mas ingênuo, de manter-se em pé numa jogada destinada ao fracasso. E citava como exemplo a ser seguido o agora saudoso Fred, que, no jogo de abertura do Itaquerão, se jogou “histericamente” na área ao ser tocado com suavidade por um croata, fazendo germinar um pênalti que nos encaminhou a virada naquele jogo.

Fred foi o homem de referência da seleção durante a Copa do Mundo de 2014, no Brasil / Gaspar Nobrega / Vipcomm

Naquela época, apressados saíram em defesa da autoproclamada natureza ética americana, repudiando o elogio ao malandro feito pelo New York Times. “Você sentiria orgulho de obter vantagem de forma ilícita diante de um filho?”, esbravejou um radialista, soltando perdigotos ao microfone. É preciso ser pós-graduado em canalhice para responder sim a uma pergunta assim. Mas a sutileza costuma ser a primeira vítima das ideias rasas. É uma turma que dominou o debate público simplificando conversa complexa, e não vai ser este cronista de meia idade que, falando aos ventos, vai interromper essa loucura.

A noite do 4 a 1 no Paraguai

A questão é que, 12 anos depois, enquanto testemunhava a surra aplicada pelos EUA nos paraguaios, vi a força da tal retidão ianque. Peleando contra o sono que me acomete a cada jogo agendado no fuso horário de Los Angeles, enxerguei uma goleada de 4 a 1 construída ao natural, sem malandragem, com retidão, numa mecânica plena de cumplicidade entre os seus.

E olha que estão comandados por um argentino, o Pochettino, cuja escola não se distingue pela elegância no trato do adversário. É cedo, eu sei, mas dá para perguntar: os americanos descobriram um jeito de triunfar sem canastrices?

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Se pensarmos como essa Copa foi parar lá, com o FBI investigando corrupção para constranger os cartolas, com título de Paz ao Trump e vistas grossas da Fifa ao autoritarismo nos guichês de imigração dos caras, não dá para ser tão otimista. Talvez a honestidade, no caso americano, se aplique apenas dentro das quatro linhas: do gramado, não da Constituição.

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