A contratação de Memphis Depay pelo Corinthians sempre esteve muito distante de ser uma operação convencional. Desde que desembarcou no Brasil, em setembro de 2024, o holandês representou ao mesmo tempo uma aposta esportiva, uma ação de marketing gigantesca e um compromisso financeiro de proporções pouco comuns no futebol brasileiro. E que o clube não podia pagar, como se comprova no presente. Quase dois anos depois, a negociação para manter o bom atacante holandês no clube repete o mesmo roteiro cheio de mistérios e muitas dúvidas: envolve milhões de reais, dívidas, cláusulas comerciais e uma dose considerável de risco. Para os dois lados.

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Memphis chegou livre no mercado depois de deixar o Atlético de Madrid e assinou até 31 de julho de 2026, nesta sexta-feira. A operação inicialmente divulgada ficava na casa de R$ 70 milhões, com R$ 57 milhões previstos no contrato de patrocínio da Esportes da Sorte. Posteriormente, documentos mostraram que o custo poderia ser muito maior: ao menos R$ 82 milhões em pagamentos fixos e líquidos, chegando a R$ 120 milhões com metas, bônus e premiações.

Memphis vai assinar contrato com o Corinthians por mais dois anos, com salário de R$ 2 milhões / Corinthians

O contrato contemplava salário, luvas, direitos de imagem, premiação por participação em jogos, gols, assistências e conquistas de títulos. Memphis cumpriu várias dessas metas e também entregou retorno esportivo. Em 79 partidas pelo Corinthians, marcou 20 gols, distribuiu 15 assistências e participou das conquistas do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil de 2025, além da Supercopa de 2026. Foi protagonista em momentos importantes e rapidamente se transformou em uma das principais referências técnicas do elenco.

Dívida de R$ 42 milhões

O problema é que o Corinthians não conseguiu acompanhar financeiramente o desempenho previsto no contrato. O clube acumulou R$ 42 milhões em débitos com o jogador (já se fala em R$ 44 milhões) envolvendo parcelas de luvas, direitos de imagem, salários e bonificações. Essa dívida tornou-se o ponto central das negociações. Não do passado, mas do presente. Antes de discutir um novo vínculo, Memphis e seus representantes queriam garantias de que os compromissos antigos seriam reconhecidos e pagos. Não foram ainda. Mas há uma promessa de pagar tudo em prestações por 24 meses. E mais os valores do novo contrato. Memphis precisa assinar o novo acordo, ou algum aditivo, para não ser impedido pelos transfer ban que a Fifa aplica ao clube.

Marcelo Paz, diretor de futebol, e o presidente Osmar Stabile: a dupla que comanda o Corinthians / Corinthians

Depois de semanas de propostas e contrapropostas, Memphis aceitou reduzir a remuneração no novo acordo. A renovação encaminhada prevê mais dois anos de contrato, até meados de 2028, com um modelo financeiro mais barato do que o atual. Paralelamente, os R$ 42 milhões devidos pelo Corinthians seriam parcelados durante o período do novo vínculo. A solução permite ao clube diminuir o custo mensal, mas não elimina a dívida: apenas distribui o pagamento ao longo das próximas temporadas, na conta do próximo presidente.

Há muitos interesses na mesa

O interesse do Corinthians em manter Memphis não é apenas técnico. O clube enfrenta três punições que impedem o registro de novos jogadores e sabe que dificilmente conseguirá reforçar o elenco enquanto os transfer bans estiverem ativos. Perder o holandês significaria abrir mão de um jogador de nível internacional sem ter condições imediatas de encontrar um substituto. Nesse cenário, renovar passou a ser também uma medida de proteção esportiva. O técnico Fernando Diniz sabe disso. Mas não se mete. É decisão do clube.

Memphis Depay usou o primeiro semestre deste ano para se preparar para a Copa do Mundo / Corinthians

E, claro, há essa discussão burocrática. O vínculo termina nesta sexta-feira, dia 31 de julho. O Corinthians entende que pode assinar e registrar a renovação mesmo depois do vencimento, porque Memphis já pertence ao clube e não seria considerado uma nova contratação. O clube está seguro disso. A CBF também informou que a extensão de um vínculo existente não é atingida pelo transfer ban. Especialistas em direito esportivo, no entanto, avaliam que o caminho mais seguro seria assinar e protocolar o acordo antes do término do contrato atual. Ou esticar o acordo atual por mais três meses.

Clube tem dívida de R$ 2,8 bi

Os exames médicos também entraram na equação do Corinthians com o jogador. A diretoria exigiu que Memphis fosse avaliado antes da assinatura definitiva, especialmente por causa dos problemas físicos enfrentados pelo atacante nas últimas temporadas. O holandês permaneceu treinando durante o período de férias e demonstrou intenção de continuar no Brasil, mas o Corinthians não queria assumir um compromisso de mais dois anos sem conhecer detalhadamente suas condições clínicas.

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A renovação, portanto, não pode ser tratada como a permanência de um grande jogador. Ela é também um retrato do Corinthians atual. Um clube que precisa conservar seu principal astro, mas carrega uma dívida milionária com ele; que aceita estender um contrato para ganhar tempo no pagamento; e que negocia pressionado por punições que o impedem de buscar alternativas no mercado. Memphis vale a aposta? Para a diretoria corintiana, sim. Mas o novo acordo somente fará sentido se vier acompanhado de responsabilidade financeira. A primeira contratação foi feita com ambição de potência mundial. A renovação precisa ser conduzida com os pés no chão. E não parece que salário de R$ 2 milhões por mês seja agir com os pés no chão quando se tem uma dívida acumulada de R$ 2,8 bilhões.

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