Brasil 1 x 1 Marrocos. Para uma estreia de Copa do Mundo diante do adversário mais forte do grupo, isso não é pouca coisa. Mas também seria desonesto fingir que o empate por 1 a 1 com Marrocos, neste sábado, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, não deixou boas sensações para quem sonha com o hexacampeonato. Na verdade, numa análise fria, o Brasil escapou da derrota e achou o empate num lance individual de seu principal jogador.
O saldo da primeira noite brasileira na Copa de 2026 é de preocupação.
Se Carlo Ancelotti passou as últimas semanas avaliando cada detalhe, observando treinamentos e escolhendo cuidadosamente os onze titulares para a estreia, a impressão deixada em campo é que algumas das suas apostas não funcionaram. Ibañez, Lucas Paquetá e Igor Thiago, nomes que surpreenderam na escalação inicial, tiveram atuações muito abaixo do esperado. E o mais preocupante é que o Brasil saiu do primeiro jogo sem oferecer respostas claras sobre qual é, afinal, sua formação ideal para lutar pelo título.

O resultado, isoladamente, não chega a ser ruim. Em Copa do Mundo, estreias costumam carregar um peso enorme. O principal objetivo era não perder. Se não deu para vencer, ao menos a seleção somou um ponto contra o rival mais complicado da chave. Mas resultado e desempenho são coisas diferentes. E o desempenho esteve longe de convencer.
Um Brasil perdido
O primeiro tempo foi, provavelmente, um dos mais difíceis enfrentados pela Seleção nos últimos meses. E o mais preocupante.
Com apenas 12 minutos de partida, Marrocos já havia finalizado seis vezes contra apenas uma do Brasil. A equipe africana pressionava alto, encurtava espaços e parecia conhecer exatamente os pontos frágeis da construção brasileira. O time de Ancelotti teve enorme dificuldade para sair jogando. Ficou perdido diante das linhas de passe montadas pelos marroquinos na entrada da área e acumulou erros técnicos em sequência.
Aos 11 minutos, a torcida marroquina já entoava gritos de “olé” nas arquibancadas. Não era provocação gratuita. Era reflexo do que acontecia dentro de campo.
O Brasil simplesmente não jogava.
Ibañez sofreu para lidar com as movimentações pelo seu setor. Douglas Santos também encontrava dificuldades para conter a agressividade adversária. Paquetá não encontrava espaços para organizar a transição. Igor Thiago praticamente não recebeu uma bola em condições de finalizar.
Mas o problema era coletivo.
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Casemiro, Bruno Guimarães e Paquetá fizeram uma atuação especialmente ruim. O trio de meio-campo acumulou erros de passe, perdeu divididas e foi dominado justamente no setor mais importante do jogo. Marrocos ganhou os duelos, controlou o ritmo da partida e tomou conta do campo.
O gol parecia apenas questão de tempo. E veio aos 20 minutos. Após mais uma perda de posse brasileira, uma entre tantas na etapa inicial, Marrocos acelerou a transição. Mazraoui encontrou Brahim Díaz, que deu um passe espetacular entre os zagueiros. Saibari atacou o espaço deixado pela defesa desorganizada, venceu na velocidade e encobriu Alisson com categoria.
Era a tradução perfeita do jogo. E justiça no placar.

Naquele momento, o cenário era preocupante. O Brasil não apenas perdia. Era amplamente dominado. Felizmente, ainda existe o talento individual. Quando a atuação coletiva não encontra soluções, os grandes jogadores costumam aparecer. E Vini Júnior apareceu.
Aos 32 minutos do segundo tempo, quando o Brasil atravessava seu pior momento emocional na partida e parecia cada vez mais distante do empate, o camisa 10 assumiu a responsabilidade. Recebeu pela esquerda, chamou o marcador para dançar, cortou para dentro e soltou um foguete de pé direito.
A bola viajou a 114 km/h, segundo medição oficial da Fifa. Um verdadeiro torpedo. Sem chance para Bono. Um golaço. Baila, Vini!
Mais do que o gol, o lance simbolizou algo que há muito se espera dele na Seleção: protagonismo. Pela primeira vez em uma estreia de Copa do Mundo, Vini carregou o Brasil nas costas num momento de extrema dificuldade.
Ancelotti não gostou
No intervalo, Ancelotti já havia reconhecido os problemas. Sacou Casemiro, que além da má atuação estava pendurado, e tirou Ibañez, outro que não encontrara a partida. Fabinho e Danilo entraram tentando corrigir as fragilidades.
Pouco depois, vieram novas mudanças. Igor Thiago e Paquetá deixaram o campo para as entradas de Bruno Guimarães e Luís Henrique. Mais tarde, Danilo Santos completou a série de substituições.
Nada, porém, encaixou de forma consistente. O Brasil melhorou em competitividade, mas não em organização. O jogo ficou arrastado, com muitos atletas demonstrando desgaste físico e excessiva preocupação em não cometer erros. Faltou fluidez. Faltou confiança. Faltou futebol.
Ao final da partida, o próprio Ancelotti admitiu a superioridade marroquina.
“Não começamos bem e perdemos muitos duelos. Melhorou na segunda parte. Partida difícil porque Marrocos é uma boa equipe. Eles saíram na pressão, fizeram transições perigosas. Se esperava começar melhor, mas pode passar porque Marrocos é uma boa equipe”
Carlo ancelotti
A expressão fechada do treinador na saída do gramado talvez tenha dito tanto quanto suas palavras.
Porque o empate mantém o Brasil vivo e em condições favoráveis dentro do grupo. Mas não elimina as dúvidas.
Muito pelo contrário.
A Seleção deixa Nova Jersey sem derrota, sem crise e sem desespero. Mas também sem um time. A Copa começou revelando que ainda existe uma distância considerável entre o Brasil que Ancelotti imagina e o Brasil que efetivamente apareceu em campo.





