A decisão de Dorival Júnior de abrir o treino do Corinthians para a imprensa pode soar, à primeira vista, como um detalhe menor no cotidiano de um clube de futebol. Mas não é. Trata-se de um gesto simbólico que confronta uma prática sistematicamente adotada nos últimos quatro anos. Trata-de do veto quase absoluto à presença de jornalistas nas atividades diárias. Mais do que aplausos, essa é uma medida que merece, no mínimo, reflexão.

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O que nasceu como uma medida emergencial durante a pandemia da Covid-19 — quando restrições sanitárias eram justificáveis — virou regra de comportamento mesmo após a normalização do país. O acesso foi barrado, e os clubes assumiram o monopólio da informação, entregando à imprensa e ao torcedor apenas o que decidem publicar em seus canais oficiais. Um cardápio de notícias chapa-branca, que enaltece virtudes, oculta problemas e, invariavelmente, distorce a realidade.

Dorival abre treino do Corinthians para a imprensa e mostra que seu trabalho e do elenco são bons / Corinthians

O caso do Palmeiras é talvez o mais emblemático: Abel Ferreira, que não esconde de ninguém sua dificuldade de lidar com a livre cobertura jornalística no futebol, mantém treinos blindados as eternum, como se houvesse segredos invioláveis a proteger. É um direito dele, uma decisão do clube, mas que pode ser questionada, ainda que aceita. Em outros clubes, eventuais trocas de treinadores abriram pequenas brechas, mas a regra segue sendo a do fechamento completo.

Quem ganha é o torcedor

É nesse cenário que o gesto de Dorival ganha relevância. Ao abrir o treino nesta quarta-feira, ele não apenas resgata um direito histórico da imprensa, mas também dá um recado: não há mal nenhum em permitir que o torcedor receba informações plurais sobre seu time. Tanto que ele não se furtou, mesmo diante dos olhos dos jornalistas e das lentes das câmeras, de cobrar melhor rendimento dos atletas num ensaio de jogadas de contra-ataque. Uma cobrança normal de trabalho, sem margem para exposições públicas.

O futebol não pode mais ficar preso a um modelo que só serviu para atender demandas da pandemia. Todos os outros setores da sociedade já se livraram desse flagelo. Não se trata de voltar ao modelo pré-pandemia, quando a rotina do trabalho da imprensa esportiva era de portas abertas todos os dias, com livre convívio entre jornalistas e atletas. Mas há espaço, sim, para um meio-termo. Alguns minutos de janela, alguns dias na semana — um convívio que preserve eventuais segredos técnicos sem sufocar a transparência, num ambiente controlado, com limites pré-estabelecidos.

Corinthians se prepara para retomar o Brasileirão depois da parada para a Libertadores / Corinthians

É assim em todos os eventos sob a chancela da Fifa, por exemplo, e os clubes brasileiros que estiveram no recente Mundial tiveram que se adequar à esse padrão menos proibitivo. Por que não adotá-lo também fora dessas circunstâncias? No fim, o maior beneficiado seria o torcedor. É ele quem tem o direito de escolher em quem acreditar, quem analisar criticamente o desempenho do time, quem comparar versões e formar opinião própria. Manter tudo fechado é infantilizar o debate, falseando a realidade.

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O Corinthians, tantas vezes criticado pela imprensa, pode ter dado nesta semana um passo raro de bom senso. Que outros clubes reflitam e percebam: futebol não se sustenta apenas em vitórias, mas também em credibilidade. E transparência. The Football parabeniza
o Corinthians por essa demonstração de respeito ao trabalho da imprensa livre e enaltece Dorival Júnior por sua maturidade profissional.

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