Cuidado: estão deixando chegar. A frase, tantas vezes usada no futebol brasileiro para avisar que um time começa a ganhar corpo dentro de uma competição, serve como luva para explicar o que Egito e Cabo Verde fizeram neste domingo de Copa do Mundo. Em grupos que pareciam desenhados para outros protagonistas, as duas seleções africanas deixaram de ser apenas personagens curiosos da primeira fase. Agora, chegam à última rodada com chances reais de mata-mata — e, no caso egípcio, com a classificação nas próprias mãos.
Não é pouca coisa. O Mundial de 48 seleções nasceu cercado por uma pergunta inevitável: a ampliação do torneio produziria mais desequilíbrio ou abriria espaço para histórias novas? Depois de duas rodadas, a resposta passa por seleções como Egito e Cabo Verde. Nenhuma delas chegou com o peso das grandes candidatas. Nenhuma tinha a obrigação de mandar em seu grupo. Mas ambas entenderam antes de muitos favoritos que, em uma Copa mais larga, sobreviver também é uma arte.

Egito e Cabo Verde encantam
O Egito foi além da sobrevivência. Contra a Nova Zelândia, a seleção africana saiu atrás, viu o adversário sonhar com a primeira vitória de sua história em Copas e precisou reagir com maturidade. A virada por 3 a 1 teve peso de afirmação. Foi a primeira vitória egípcia em Mundiais, justamente em sua nona partida na competição, e veio no momento em que não bastava competir: era preciso ganhar.
A resposta veio no segundo tempo. Zico abriu o caminho da reação, depois foi a vez de Mohamed Salah, o craque foi o autor do gol da virada e colocou o talento a serviço de uma equipe que cresceu quando o jogo ficou mais pesado, e Trezeguet fechou a conta. O Egito, que havia estreado com empate diante da Bélgica, passou de incógnita a líder do Grupo G. Com quatro pontos, fica a um empate contra o Irã de carimbar a vaga. A Bélgica, favorita natural da chave, agora olha para cima e faz conta.
Cabo Verde vive outra espécie de encanto. Se o Egito venceu para se afirmar, os cabo-verdianos resistiram para provar que não são visita. Estreante em Copas, a seleção já havia arrancado um empate sem gols contra a Espanha. Neste domingo, segurou o Uruguai em um 2 a 2 que vale muito mais do que um ponto na tabela. Vale a confirmação de que a estreia não foi acaso.
Valentia dos africanos
Há algo de simbólico nessa campanha. Cabo Verde passou pelas duas primeiras rodadas sem vitória, mas também sem derrota, enfrentando duas seleções campeãs mundiais. Não é uma história de domínio. É uma história de nervo, organização e capacidade de permanecer dentro do jogo. Para uma seleção que chegou ao Mundial com a missão de descobrir o tamanho do palco, o saldo é enorme: chega à rodada final contra a Arábia Saudita sabendo que pode transformar uma participação em classificação heróica.

A grande conexão entre Egito e Cabo Verde está aí. São seleções diferentes, com trajetórias diferentes e responsabilidades diferentes, mas que representam a mesma ideia: a Copa mudou de tamanho, e quem souber competir durante 90 minutos terá direito a sonhar. O novo formato amplia a margem para o improvável. Um empate contra favorito não é mais apenas uma lembrança bonita. Pode ser ponte para a próxima fase. Uma vitória contra adversário direto pode mudar todo o mapa do grupo.
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A última rodada dirá até onde essa história vai. Mas o recado já foi dado. Em uma Copa que parecia preparada para coroar favoritos, Egito e Cabo Verde estão fazendo o papel que mais incomoda os grandes: chegaram vivos, ganharam confiança e obrigaram todo mundo a olhar de novo para a tabela. Estão deixando chegar. E agora talvez seja tarde para ignorar.





