O gesto dura apenas alguns segundos, mas carrega a história de uma vida inteira. Ao marcar seu primeiro gol em Copas do Mundo, na goleada da Espanha sobre a Arábia Saudita, em Atlanta, Lamine Yamal comemorou repetindo um movimento que já se tornou sua marca registrada: desenhou com as mãos o número “304”. Para quem não conhece seu significado, parecia apenas mais uma celebração inovadora.
Na verdade, era uma homenagem a Rocafonda, bairro operário de Mataró, na periferia de Barcelona, onde o jovem espanhol cresceu, longe dos holofotes, das cifras milionárias e da sociedade perfeita que a realidade paralela da Copa do Mundo tenta vender. O número faz referência aos últimos três dígitos do código postal local (08304), uma maneira de lembrar ao mundo que, antes de se transformar em uma das maiores estrelas do futebol, foi apenas mais um garoto criado entre imigrantes, cercado pelas dificuldades típicas da periferia.
A comemoração não é novidade. E dificilmente poderia ser enquadrada no rígido código disciplinar imposto pela Fifa, que proíbe manifestações políticas, sociais, religiosas ou de cunho pessoal durante as partidas. Mas a mensagem estava ali. Silenciosa, cifrada e poderosa justamente por escapar às proibições.

O gesto de Yamal tornou-se mais um capítulo de uma tradição quase tão antiga quanto a própria Copa do Mundo: a de jogadores que encontram maneiras de transformar o maior palco do futebol em vitrine para defender ideias ou chamar atenção para causas que consideram importantes – e que normalmente afrontam o sistema.
Lá atrás, a bandana de Sócrates
Muito antes de Yamal, coube a um brasileiro ocupar esse papel com uma dimensão muito maior. Na Copa do Mundo de 1986, no México, Sócrates levou para dentro de campo o mesmo espírito crítico que marcou toda a sua carreira. O capitão da seleção improvisou bandanas utilizando as próprias meias do uniforme e estampou mensagens como “México sigue en pie”, em solidariedade ao país anfitrião, ainda abalado pelo terremoto que havia matado milhares de pessoas poucos meses antes do Mundial. Nas partidas seguintes, outras frases apareceram na testa do camisa 8, como “Sem violência” e “Precisamos de justiça”, transformando cada entrada em campo em uma manifestação discreta, mas carregada de significado.

Não era um gesto isolado. Sócrates talvez tenha sido o jogador brasileiro que melhor compreendeu que o futebol também é um organismo social e político. Médico, leitor voraz e dono de uma formação intelectual incomum para os padrões do esporte, foi o principal líder da Democracia Corintiana, movimento que revolucionou as relações de trabalho e, sobretudo de poder, dentro do Corinthians ao defender que jogadores, comissão técnica e funcionários participassem coletivamente das principais decisões do clube. Em plena reta final da ditadura militar, o movimento tornou-se um dos maiores símbolos da redemocratização do futebol brasileiro e ajudou a transformar o Corinthians em uma referência de participação, cidadania e liberdade de expressão.
Uma das meias utilizadas por Sócrates para improvisar suas bandanas durante a Copa de 1986 acabou incorporada ao acervo do Museu da Fifa, doada pela esposa do craque. A peça representa não apenas uma lembrança daquele Mundial, mas também um dos símbolos mais marcantes da liberdade de manifestação dentro do futebol.
Não é só futebol
Quarenta anos depois, os tempos mudaram, mas os recados continuam encontrando caminhos para chegar ao público. Na Copa do Catar, em 2022, os jogadores da Alemanha taparam a boca durante a foto oficial antes da estreia em protesto contra as restrições impostas pela Fifa às manifestações dos atletas. Capitães de diversas seleções europeias desistiram de usar a braçadeira “One Love” após a entidade ameaçar aplicar punições esportivas, enquanto a seleção do Irã permaneceu em silêncio durante a execução do hino nacional em solidariedade aos protestos que tomavam conta de seu país.
Quatro anos antes, na Rússia, os suíços Granit Xhaka e Xherdan Shaqiri comemoraram gols diante da Sérvia fazendo com as mãos o símbolo da águia de duas cabeças da bandeira da Albânia, gesto carregado de significado político por causa dos conflitos envolvendo Kosovo e os Bálcãs.
SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
O ambiente de vigilância chegou a produzir situações insólitas. Também no Catar, o jornalista brasileiro Victor Pereira foi abordado por policiais que confundiram a bandeira de Pernambuco com a bandeira do movimento LGBTQIA+. A bandeira foi retirada à força, jogada ao chão e pisoteada. Pereira ainda teve o celular confiscado e só o recuperou depois que as imagens da abordagem foram apagadas. O episódio expôs o nível de sensibilidade e controle que cercava qualquer manifestação considerada fora dos padrões morais pelas autoridades locais.
Nesse contexto, gestos aparentemente simples acabam adquirindo uma dimensão muito maior. A meia transformada em faixa por Sócrates, o silêncio dos iranianos, as mãos sobre a boca dos alemães, a águia albanesa de Xhaka e Shaqiri ou o discreto “304” desenhado por Lamine Yamal pertencem à mesma tradição. São formas diferentes de lembrar que, por mais que os regulamentos tentem limitar discursos dentro das quatro linhas, a Copa do Mundo continua sendo também uma vitrine para a necessidade de reflexões e debates em torno de ideias que ultrapassam o futebol. Essa talvez seja a forma mais importante de gritar gol…





