“Eu decidi ficar” foi a última frase de Abel Ferreira em sua entrevista após a vitória por 1 a 0 do Palmeiras sobre o Botafogo no Rio. O treinador respondia sobre 2023, quando, segundo ele, teve oportunidade de deixar o clube. Na semana passada, a presidente Leila Pereira pagou a dívida do técnico com o Al-Sadd: R$ 31 milhões. Havia um processo na Fifa movido pelo clube do Catar porque Abel assinou um pré-contrato com o time e depois mudou de ideia.
“Eu decidi ficar” pode, de fato, ser a frase final da historinha que o treinador contou de dois anos atrás, quando poderia ter deixado o clube para ganhar mais dinheiro. Abel não foi claro e como se levantou depois de proferir a tal frase, ficou no ar que ele também pudesse estar falando de hoje. Abel tem enrolado Leila e o torcedor do Palmeiras que acredita no seu trabalho, e é a maioria, sobre sua renovação de contrato. Mas sempre destaca em suas entrevistas para as entrelinhas de suas falas.

A confusão maior do “eu decidi ficar” ficou porque o treinador disse que o “momento é de fazer o Palmeiras jogar” e que “ele, Abel, não é importante agora”. O treinador comentou que sua família é quem vai decidir sobre o seu futuro.
Família que vai decidir?
Desse ponto de vista penso ser pouco provável que os Ferreira queiram permanecer no Brasil. A família é portuguesa e a filha mais velha vai estudar em uma universidade na Europa. De modo a acreditar que todos vão embora para ficar mais próximo dela. O fato é que Abel enrolou mais uma vez para confundir e não explicar. Semanas atrás ele disse que o contrato está em suas mãos para assinar desde janeiro, mas ele exige uma cláusula de Leila para poder ir embora caso não ganhe nada neste ano. Restam a Libertadores e o Brasileirão.
“Eu decidi ficar” também vai na contramão de todas as reclamações que Abel faz do futebol brasileiro. Ele voltou a criticar, com muita razão, o calendário da CBF e da Conmebol. Disse que o Palmeiras entrou em campo “69 horas” depois de ter vencido o Universitario, de Lima, no Peru, pela Libertadores. E que também encarou uma viagem de 12 horas.
Abel é um ator
Pelo seu comportamento externo, parece que Abel não tem motivos para ficar no Brasil a não ser pelo ambiente que tem dentro do Palmeiras até 2027, quando termina o mandato de Leila. Abel é um ator. A presidente é sua sustentação no clube e no país. Quando Leila for embora, não se sabe o que pode acontecer com ele. Abel é querido na Academia, onde tem sua sala e bate cartão todos os dias. Mas está sempre se alimentando das confusões com a imprensa. Seu nome é questionado pela Mancha por problemas políticos. E por conselheiros da oposição. Ele não teve oferta da Europa.

O treinador questiona os jornalistas quando não tem respostas claras e convincentes para dar. E se perde nas palavras e no jeito de falar. O torcedor entende tudo isso. Ele conhece como poucos o futebol brasileiro e tem o direito de cobrar o treinador do seu time. Mas Abel, pelo que fala, entende que ele deveria estar acima das críticas pelo que fez, e não foi pouco, ao Palmeiras nos últimos cinco anos. O que ele não entende é que as críticas não são pela sua carreira, que mudou da água para o vinho desde que pisou no Brasil, mas por momentos ruins do time. Portanto, perfeitamente legítimas. A própria diretoria do Palmeiras esperava que o elenco estivesse respondendo melhor nessa altura da temporada.
O “eu decidi ficar” da entrevista de Abel no domingo mais confundiu do que esclareceu. Pode ser a renovação do seu contrato ou a pavimentação de sua saída.





