O fair play financeiro do futebol brasileiro começou a temporada como uma novidade cercada de dúvidas sobre sua capacidade de realmente mudar velhos hábitos dos clubes. Nove meses depois de entrar em vigor, a resposta começa a aparecer fora dos documentos da CBF. São Paulo, Grêmio e América-MG já sentiram efeitos concretos das novas regras, que transformaram dívidas e dificuldades de caixa em obstáculos capazes de interferir no mercado de transferências.

Mais sobre o São Paulo

O caso mais recente envolve o São Paulo. O clube foi condenado pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf) por uma dívida com o Novorizontino referente à contratação do volante Djhordney. O negócio foi fechado por R$ 1 milhão, inicialmente parcelado em cinco vezes de R$ 200 mil. Depois do atraso, a agência concedeu prazo de 45 dias para a regularização, sob risco de impedir o registro de novos jogadores.

Fair play do o volante Djhordney
Volante Djhordney é um dos primeiros casos de cobrança sob as novas regras do fair play financeiro brasileiro / São Paulo

São Paulo refinancia dívida

Nesta quarta-feira, o São Paulo encaminhou um novo acordo com o Novorizontino para quitar a pendência até o fim da temporada e evitar a punição. Como a janela de transferências está fechada, um eventual bloqueio não produziria efeito esportivo imediato. O impacto, neste momento, é outro: pela primeira vez, uma dívida doméstica recente colocou um dos grandes clubes brasileiros diante da possibilidade concreta de ser impedido de registrar reforços por determinação do sistema nacional de controle financeiro.

Grêmio e América-MG conheceram outro braço do mecanismo. Os dois clubes foram submetidos ao chamado bloqueio preventivo e parcial depois de apresentarem planos de reestruturação de débitos à Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), situação classificada pelo regulamento como “evento de insolvência”. Entretanto, isso não significa uma proibição absoluta de contratar. Significa que contratar deixou de ser uma decisão esportiva. Cada operação precisa respeitar limites definidos pela Anresf. No caso do Grêmio, a liberação de novos registros depende da existência de saldo positivo entre vendas e aquisições de atletas, além da manutenção da folha salarial dentro dos parâmetros determinados pelo regulamento.

Cerco aos maus pagadores

A diferença é importante porque ajuda a entender o tamanho da mudança. O fair play financeiro brasileiro não foi desenhado apenas para punir quem deixa de pagar. Ele pretende agir antes que um clube com dificuldades financeiras continue aumentando suas obrigações como se nada estivesse acontecendo.

O Sistema de Sustentabilidade Financeira entrou em funcionamento em 2026 com implantação gradual e quatro pilares: controle de dívidas em atraso, equilíbrio operacional, controle dos custos do elenco e capacidade de endividamento de curto prazo. Para os clubes da Série A, o déficit operacional admitido será limitado a R$ 30 milhões ou 2,5% das receitas. O modelo estabelece limites para os custos do elenco e determina que a dívida líquida de curto prazo fique dentro de um teto em relação às receitas relevantes.

É para valer

Parte dessas exigências ainda atravessa período de adaptação. Mas as dívidas assumidas a partir de 1º de janeiro de 2026 já estão submetidas às novas regras. É aí que o sistema começa a ganhar força: clube que contrata precisa demonstrar capacidade para pagar. A Anresf dispõe de uma escala ampla de punições. Ela vai de advertências, multas e retenção de receitas até transfer ban, perda de pontos, rebaixamento e cassação da licença. A aplicação dependerá da natureza e da gravidade de cada infração.

Presidente da CBF, Samir Xaud, reforça o controle financeiro dos clubes com a implantação do fair play brasileiro / CBF

Durante anos, o futebol brasileiro conviveu com uma lógica conhecida: clubes acumulavam dívidas, renegociavam compromissos e, muitas vezes, continuavam contratando enquanto credores aguardavam pagamentos. O novo sistema tenta quebrar esse ciclo.

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Ainda é cedo para saber até onde conseguirá chegar. A eficácia dependerá da independência da agência, da fiscalização e da disposição para aplicar as mesmas regras a clubes de diferentes tamanhos. Mas os primeiros casos já produziram uma mudança relevante. Antes de pensar apenas no jogador que deseja contratar, o dirigente brasileiro começa a precisar olhar para a dívida que deixou para trás. O fair play financeiro ainda está em seu primeiro ano. Só que já não é mais uma ameaça escrita no regulamento.

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