A imagem de torcedores da Roma fazendo uma saudação fascista na arquibancada voltou a colocar uma questão histórica dentro de um dos ambientes mais populares da Itália: o futebol. Dezesseis torcedores foram proibidos de frequentar estádios por períodos entre um e cinco anos depois de realizarem a chamada “saudação romana” durante o jogo contra a Atalanta, no Estádio Olímpico, em Roma. A punição foi determinada pela polícia italiana e vale também para jogos da Roma no exterior e confrontos da seleção italiana.

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Para entender o significado do gesto, é preciso voltar quase um século. O fascismo foi o movimento político liderado por Benito Mussolini, que chegou ao poder na Itália em 1922 e construiu um regime autoritário, nacionalista e antidemocrático. O fascismo defendia a concentração de poder, o culto ao líder, a repressão aos adversários políticos e o uso da violência como instrumento político. O regime de Mussolini perseguiu opositores e adotou políticas racistas e antissemitas, especialmente a partir do fim dos anos 1930.

Estádio Olímpico: torcedores da Roma são detidos por gestos fascistas em jogo do time nesta temporada / Reprodução

A saudação com o braço estendido ficou associada ao fascismo italiano e foi utilizada pelo nazismo alemão. Por isso, quando aparece em uma arquibancada italiana, ela não é interpretada como uma comemoração ou um gesto qualquer de torcida. Dependendo do contexto, pode representar uma manifestação de exaltação do fascismo ou de suas ideias nos dias atuais. A legislação italiana trata de maneira específica a reorganização e a propaganda relacionadas ao fascismo, embora a aplicação das normas dependa das circunstâncias de cada caso.

Fascimo e a Itália

A relação entre fascismo e futebol na Itália tem uma explicação histórica. Durante o regime de Mussolini, o esporte foi utilizado como instrumento de propaganda nacionalista. O futebol ganhou enorme importância simbólica, e a seleção italiana conquistou as Copas do Mundo de 1934 e 1938. O governo explorava as vitórias esportivas como demonstração da força e da imagem que pretendia projetar para o país. Isso ajudou a aproximar, naquele período, futebol, nacionalismo e propaganda política.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a Itália rompeu institucionalmente com o fascismo. A Constituição republicana, que entrou em vigor em 1948, proibiu a reorganização do antigo Partido Fascista. A chamada XII Disposição Transitória e Final estabelece que é proibida a reorganização, sob qualquer forma, do partido fascista dissolvido. Uma lei de 1952 regulamentou essa determinação e incluiu entre as condutas relacionadas à reorganização fascista a exaltação de princípios, métodos e símbolos do antigo regime, como fizeram os torcedores da Roma.

Torcedores da Roma detidos

As referências à extrema direita e ao fascismo continuam aparecendo em determinados grupos de torcedores italianos, principalmente entre setores conhecidos como “ultras”. Isso não significa que a torcida de um clube ou o futebol italiano como um todo sejam fascistas. Não é isso. Trata-se de uma presença localizada em determinados grupos radicais. A própria polícia italiana identificou os torcedores envolvidos nesse episódio do time da Roma como integrantes de um setor mais radical da Curva Sud, onde eles ficam no estádio.

Mussolini usou a conquista da seleção italiana na Copa do Mundo de 1934 como propaganda política / Reprodução

O episódio ajuda a explicar por que os estádios são espaços tão sensíveis para manifestações políticas. Uma arquibancada reúne milhares de pessoas, cria identidade coletiva e transforma símbolos em mensagens públicas. Um gesto, uma bandeira, uma faixa ou um canto pode carregar uma história que ultrapassa o resultado de um jogo. No caso da saudação fascista, o problema não está na provocação entre torcidas, mas no significado histórico de um movimento que destruiu instituições democráticas e perseguiu seus adversários.

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No jogo contra a Atalanta, a Roma venceu por 2 a 1, com gols de Mario Hermoso e Matías Soulé. Mas o resultado acabou ficando em segundo plano diante das imagens produzidas nas arquibancadas. O futebol italiano, mais uma vez, mostra que seus estádios carregam não apenas paixão por clubes, rivalidades e tradição, mas marcas da história política de um país que todos querem esquecer. Compreender o que está por trás de uma saudação fascista é fundamental para entender por que aquele gesto, quase cem anos depois de Mussolini chegar ao poder, ainda provoca punição, debate e preocupação na Itália.

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