Rivalidade, provocação, corneta, ironia, cobrança, tudo isso faz parte do jogo. Mas há limites que o futebol brasileiro não deveria ultrapassar. O passionalismo que rege as relações do esporte sempre foi pródigo em transformar uma frase infeliz em munição para anos de provocações. Mas existe uma diferença enorme entre brincar com a desgraça do adversário e desejar que ela continue acontecendo. E é essa fronteira que alguns torcedores parecem ter perdido ao comemorar cada nova lesão de Paulinho, do Palmeiras, porque enxergam no sofrimento do jogador rival uma oportunidade de atingir a presidente do clube Leila Pereira.
Não. Paulinho não é Leila Pereira. E o seu drama pessoal para voltar a jogar não pode ser transformado em instrumento de vingança contra uma dirigente ou um clube. É verdade que Leila deu munição para isso. Em novembro de 2024, ao explicar por que o Palmeiras não tinha interesse em contratar Neymar, a presidente foi categórica: “O Palmeiras não é um departamento médico.” A declaração tinha um sentido administrativo — o clube queria jogadores em condições de atuar imediatamente —, mas acabou ganhando vida própria no universo das provocações futebolísticas.

Leila errou ao transformar uma política de contratação em bravata. Dirigente de futebol deveria saber que, nesse ambiente, o impacto de toda frase pode ricochetear no vizinho e cair no seu próprio telhado. Paulinho, ex-Atlético, chegou ao Palmeiras ainda em recuperação de uma cirurgia na perna direita. Depois de uma longa ausência, conseguiu voltar a jogar, mas passou a conviver com problemas físicos. Refez a cirurgia. Agora, quando se preparava para retornar, sofreu outra lesão muscular e deverá ficar afastado por mais algumas semanas.
A frase de Leila
É evidente que existe aí um prato cheio para a ironia. E legítimo lembrar a frase de Leila e questionar se a realidade não desmentiu a segurança com que ela falou de Neymar. É legítimo discutir o investimento feito pelo Palmeiras, os prejuízos esportivos provocados pela ausência do atacante e até questionar a decisão de contratar um jogador que chegou ao clube sem estar em condições de atuar.
O que não é legítimo é torcer para que Paulinho continue se machucando para atingir o ego de Leila. Isso é desumano e ultrapassa qualquer marcador de rivalidade. Não se justifica nem por eventual antipatia que alguém possa ter por Leila ou pelo Palmeiras. Porque, antes de ser jogador do Palmeiras, Paulinho é um ser humano. Um trabalhador que ganha a vida jogando futebol e que, neste momento, está impedido de exercer a sua profissão. Cada nova lesão significa mais tratamento, fisioterapia, ansiedade, incertezas e a necessidade de começar outra vez o caminho que ele já percorreu tantas vezes.

Não há nada de engraçado nisso. O Palmeiras pode contabilizar os prejuízos financeiros de um investimento que não entrega o retorno esperado. A maior contratação da história do clube (RS 150 milhões) por enquanto só deu prejuízo. Os adversários podem até lembrar, com ironia, que a famosa frase de Leila envelheceu mal. Mas comemorar a dor de Paulinho é outra coisa.
Paulinho não é Leila
É desonesto! Jogadores de futebol estão sujeitos a lesões. Faz parte dos riscos da profissão. E não é preciso sequer entrar em campo para se machucar: um treinamento pode ser suficiente. Uma mudança de direção, um movimento banal, um choque, uma sobrecarga muscular. O corpo do atleta é sua ferramenta de trabalho — e também seu limite. Hoje é Paulinho. Mas amanhã pode ser um jogador do Corinthians, do Santos, do São Paulo, do Flamengo… Pode ser aquele jogador que admiramos. Pode ser o nosso ídolo.
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E talvez essa seja a melhor maneira de compreender a dimensão daquilo que estamos fazendo quando transformamos a lesão de um adversário em motivo de festa. Leila pode responder por suas palavras. O Palmeiras pode ser questionado pelas escolhas que faz e cobrado pelo rendimento de um jogador que pouco conseguiu jogar. Paulinho, porém, não tem de pagar essa conta. Ele já está pagando outra, muito mais dura: a de não conseguir fazer aquilo que mais deseja. A melhor resposta à famosa frase “o Palmeiras não é um departamento médico” não é desejar que o jogador passe a vida nele. É torcer para que ele consiga sair de lá. Deixemos Paulinho em paz para que ele possa seguir na sua luta de cabeça erguida!





