O presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, escolheu o ponto mais sensível da rivalidade espanhola para desviar as atenções da crise, dentro e fora de campo, que ajuda a entender por que o seu clube encerra sem títulos a temporada 2025/26. Entre ataques para todos os lados, o presidente madridista fez acusações, sem apresentar provas, contra o Barcelona ao citar o Caso Negreira, investigação que desde 2023 pressiona o arquirrival.
O dirigente afirmou que o Real Madrid prepara um dossiê para encaminhar à Uefa com informações sobre os pagamentos feitos pelo Barcelona a José María Enríquez Negreira, ex-vice-presidente do Comitê Técnico de Árbitros da Federação Espanhola. “Há três anos descobrimos que estávamos enfrentando um caso de corrupção sem precedentes na história do futebol mundial. É o maior escândalo da história do futebol”, disse Florentino Pérez.

O presidente do Real Madrid sustentou que o caso não pode ser tratado como assunto encerrado. Segundo o dirigente, a gravidade está não apenas nos pagamentos feitos pelo Barcelona, mas também no fato de os árbitros daquele período seguirem vinculados ao futebol espanhol. A crítica mira diretamente a estrutura de arbitragem da Espanha e reforça a tese madridista de que o “Caso Negreira” ainda exige respostas mais amplas.
Denúncia de 600 páginas
Florentino Pérez afirmou que o material preparado pelo Real Madrid terá cerca de 600 páginas e será encaminhado à Uefa em breve, consequentemente com destino à Fifa. O dirigente também disse contar com apoio interno no clube e procurou apresentar sua decisão como uma defesa não apenas dos interesses madridistas, mas da integridade competitiva do futebol espanhol.
O tom mais duro veio quando Florentino associou diretamente o caso ao enriquecimento de árbitros com recursos do Barcelona. “Os sócios do Real Madrid estão comigo na minha luta contra o Negreira. Nem sempre é o Real Madrid que sofre. Outras equipes também sofrem. O Barcelona se beneficia sempre. Vamos ver se a Uefa se envolve nesta questão, porque vai envolvê-la. É inaceitável que eu seja suspeito de corrupção paga há mais de 20 anos. Vamos ver o que acontece com as investigações jurídicas e desportivas da Uefa. Não vim para cá para que os árbitros se enriqueçam com o dinheiro do Barcelona.”
Barcelona respondeu com cautela
A reação do Barcelona foi medida. O clube catalão, atual campeão espanhol, não entrou em disputa verbal com Florentino Pérez nem respondeu ponto a ponto às acusações feitas pelo cartola. Em comunicado oficial, informou que seu departamento jurídico analisa as declarações do presidente do Real Madrid e analisa eventuais medidas legais.
“Em relação à conferência de imprensa convocada pelo presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, informamos que o nosso departamento jurídico está analisando cuidadosamente suas declarações e acusações. Elas estão sendo analisadas e os próximos passos serão avaliados. Forneceremos mais informações sobre a nossa posição e eventuais decisões tomadas oportunamente”, diz a nota oficial do Barcelona.
Caso deve ganhar os tribunais
A escolha do Barcelona por uma resposta contida tem peso estratégico. Em vez de alimentar uma troca pública de acusações, o clube catalão tenta deslocar o caso para a análise e, se for o caso, entrar em uma batalha jurídica. O movimento também revela a delicadeza do tema para o Barça. Qualquer resposta mais agressiva poderia ampliar a repercussão política da fala de Florentino. Ao optar pela cautela, o clube tenta preservar margem de ação enquanto decide se levará o episódio aos tribunais.

Entenda o Caso Negreira
O Caso Negreira veio a público em fevereiro de 2023 e envolve pagamentos feitos pelo Barcelona a empresas ligadas a José María Enríquez Negreira, ex-árbitro e ex-vice-presidente do Comitê Técnico de Árbitros da Federação Espanhola. Segundo as investigações, promotores espanhóis apontaram pagamentos de 7,3 milhões de euros, cerca de R$ 42 milhões, na cotação atual, entre 2001 e 2018.
A acusação formal apresentada em 2023 incluiu suspeitas de corrupção esportiva, administração fraudulenta e falsificação de documentação mercantil. O Barcelona nega ter comprado favorecimento arbitral e afirma que os pagamentos eram referentes a relatórios técnicos sobre arbitragem, prática que o clube sustenta ter finalidade esportiva e analítica.
Uefa tem a sua investigação
O ponto central da controvérsia é a posição ocupada por Negreira. Embora ele não apitasse partidas no período investigado, tinha função administrativa relevante na estrutura da arbitragem espanhola. A discussão, portanto, não se limita à existência dos pagamentos, mas ao possível conflito de interesse gerado pela relação financeira entre um clube e uma figura de influência no sistema arbitral.
A Uefa também abriu investigação sobre o caso em 2023, porque seus regulamentos permitem sanções contra clubes envolvidos em manipulação de resultados. Mesmo com as investigações em andamento, o Barcelona foi admitido provisoriamente na Liga dos Campeões 2023/24, enquanto a entidade manteve a possibilidade de retomar procedimentos se novos elementos surgissem.
Fracasso do Real na temporada
A ofensiva de Florentino Pérez contra o Barcelona ocorreu em meio a um ambiente de cobrança interna no Real Madrid, que perdeu o “El Clásico” no último domingo por 2 a 0 e viu o rival festejar em casa o bicampeonato espanhol. Dessa maneira, a equipe terminou a temporada com zero título e ampliou o desgaste público.
Para complicar, o Real Madrid atravessa um momento de desorganização interna. Um dos episódios tratados na entrevista foi a confusão, na semana passada, entre o francês Aurelién Tchouaméni e o uruguaio Federico Valverde, que extrapolou para uma briga nos vestiários, com o segundo indo parar no hospital. Exames detectaram traumatismo craniano.
Para o presidente, discussões e agressões físicas entre atletas não são incomuns em elencos de alta competitividade. O problema, em sua avaliação, foi a exposição de um episódio que deveria ter permanecido restrito ao ambiente interno do Real Madrid. Ao dizer que o clube sabe de onde partiu o vazamento, Florentino também deixou um recado político ao vestiário e aos funcionários. “Acho isso muito errado. Acho ainda pior que tenham tornado público. Estou aqui há 26 anos e em nenhum deles dois ou quatro jogadores se envolveram em brigas. Mas isso fica dentro do clube”, afirmou.

Florentino nega renúncia
A coletiva também serviu para Florentino Pérez responder às pressões sobre sua permanência. O dirigente anunciou novas eleições para o Conselho de Administração do Real Madrid, mas descartou renunciar. Sua defesa se apoiou na estrutura associativa do clube e na ideia de que o Madrid pertence aos sócios.
O presidente afirmou que há uma tentativa de criar uma corrente de opinião contra ele e contra os interesses do Real Madrid. A leitura de Florentino é que a temporada sem títulos abriu espaço para ataques políticos, questionamentos sobre sua gestão e especulações sobre sua saúde. “Trabalhei desde o ano 2000 para que os donos do clube fossem os sócios, diferente do que acontece em outros clubes. No Madrid não existe um único dono”, afirmou.
Em seguida, Florentino classificou o ambiente recente como resultado de campanhas contrárias aos interesses do clube e também contra sua figura pessoal. “Foi criada uma situação absurda, provocada por campanhas para gerar uma corrente de opinião contrária aos interesses do Madrid e, especialmente, contra mim. Resolveram agir para tentar me tirar daqui. Mas eu não vou sair. Serei o último dos sócios do Real Madrid a deixar o clube.”
Críticas à imprensa espanhola
Florentino acusou setores da mídia de alimentarem uma percepção de caos no Real Madrid em razão da temporada sem títulos. O presidente também rebateu especulações sobre seu estado de saúde. “Dizem que eu não existo, que estou doente. Alguns chegaram a dizer que tenho câncer terminal. Aproveito para tranquilizar as pessoas que se preocuparam comigo. Todos os dias sigo presidindo o Real Madrid e também a minha empresa. Minha saúde é perfeita.”
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A declaração reforça o caráter defensivo da entrevista. Florentino tentou conter o desgaste público, negar fragilidade política e impedir que a temporada ruim fosse interpretada como sinal de decadência estrutural do clube. “Preciso vir a público para frear tudo isso, porque não posso admitir, como presidente do Madrid, que existam pessoas nos meios de comunicação tentando se aproveitar porque neste ano não ganhamos LaLiga ou a Champions. Faz menos de dois anos que ganhei uma LaLiga e uma Champions, mas isso já foi esquecido.”





