A França passou longe da experiência amarga, com final feliz, da Copa do Mundo de 1998, quando o zagueiro Laurent Blanc anotou, aos nove minutos do segundo tempo da prorrogação, para marcar o primeiro gol de ouro da história das Copas e salvar a seleção francesa diante do Paraguai. Também não teve o mesmo peso emocional daquela tarde em Lens, no caminho do primeiro título mundial francês. Mas, 28 anos depois, o enredo voltou a se repetir em sua essência: o Paraguai se fechou, resistiu, arrastou a favorita para um jogo desconfortável, tentou transformar cada minuto em sobrevivência — e, no fim, voltou a cair por 1 a 0 contra os franceses, e agora enfrenta Marrocos na próxima quinta-feira, no Gillette Stadium, em Boston.

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Desta vez, a solução não veio de um zagueiro histórico, mas do personagem mais previsível e, ao mesmo tempo, mais inevitável desta geração. Kylian Mbappé cobrou o pênalti que decidiu a classificação francesa para as quartas de final da Copa do Mundo de 2026, no Lincoln Financial Field, na Filadélfia, depois de Diego Gómez derrubar Désiré Doué na área em lance confirmado pelo VAR. O gol levou Mbappé a sete nesta Copa, empatado na liderança da artilharia com Lionel Messi, e a 19 em Mundiais. Ele tem 19 gols em 19 jogos de Copa, distribuídos entre 2018, 2022 e 2026, e está a apenas um de Lionel Messi no ranking histórico da competição. Com a camisa da seleção francesa, somado o pênalti contra o Paraguai, Mbappé chega a 63 pelos Bleus.

França Mbappé comemora gol de pênati
Mbappé tem 19 gols em 19 jogos de Copas, distribuídos entre 2018, 2022 e 2026, e está a apenas um de Lionel Messi / Fifa

França contra o muro

Mas seria injusto contar esta classificação apenas pelo pé direito de Mbappé. Antes dele, houve Désiré Doué. O Golden Boy (Garoto de Ouro) de 2025 saiu do banco para dar à França aquilo que faltava: desequilíbrio, atrevimento e um pouco de insolência técnica para desafiar uma defesa que parecia confortável demais dentro da própria trincheira. O prêmio de melhor jovem sub-21 da Europa coroou a temporada anterior do atacante do PSG, mas o lance contra o Paraguai explicou, em poucos segundos, por que ele carrega esse rótulo.

Até a sua entrada, a França tinha posse, território e superioridade técnica, mas pouca profundidade real. O Paraguai de Gustavo Alfaro aceitava sofrer, encurtava espaços, retardava o jogo e tentava fazer a partida caber dentro de um roteiro conhecido: suportar, irritar, esfriar, sobreviver. No primeiro tempo, Koné, Rabiot, Koundé e Dembélé até ameaçaram, mas sem transformar o domínio francês em colapso paraguaio. Na volta do intervalo, Koné obrigou Orlando Gill a uma grande defesa, e só então o jogo começou a mudar de temperatura.

Ginga e individualidade

Doué acelerou o que estava lento. Partiu da esquerda, encarou a marcação, entrou na área e foi derrubado por Diego Gómez. O árbitro Ilgiz Tantashev, do Uzbequistão, precisou rever o lance na cabine, mas a imagem não deixou muito espaço para poesia paraguaia: era pênalti. Mbappé bateu no canto, sem se contaminar pelo teatro ao redor, e a França enfim encontrou a passagem que procurava desde o início.

O Paraguai ainda tentou sair do casulo na reta final. Junior Alonso arriscou de fora, Maurício obrigou Mike Maignan a trabalhar, e Orlando Gill, já nos acréscimos, evitou que Mbappé transformasse a vitória mínima em placar mais confortável. O 1 a 0, porém, parecia combinar com o reencontro histórico. Em 1998, a França sofreu até a prorrogação. Em 2026, sofreu até o VAR, até Doué e até Mbappé assumirem a história.

Rivalidade extrapola o gramado

Agora, o torneio entrega à França um jogo que ultrapassa o futebol. França x Marrocos carrega a lembrança recente da semifinal de 2022, vencida pelos franceses por 2 a 0, com gols de Theo Hernández e Randal Kolo Muani. Naquela noite, a França encerrou a maior campanha de uma seleção africana em Copas. Quatro anos depois, Marrocos chega de novo às quartas, após bater o Canadá por 3 a 0, e será novamente o adversário que coloca os Bleus diante de um espelho complexo.

A rivalidade não nasce apenas da bola. Marrocos foi protetorado francês a partir de 1912, e a relação entre os dois países atravessa colonialismo, migração, identidade, pertencimento e uma imensa comunidade de origem marroquina em território francês. Em 2022, a semifinal já havia sido tratada como simbólica por torcedores franco-marroquinos, muitos deles emocionalmente divididos entre duas histórias familiares.

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O próprio elenco marroquino ajuda a explicar esse cruzamento. Dos 26 jogadores da seleção de Marrocos nesta Copa, apenas sete nasceram no país; 19 nasceram fora, e seis nasceram na França: Issa Diop, Redouane Halhal, Ayyoub Bouaddi, Samir El Mourabet, Oussama Targhalline e Bilal El Khannouss. É o retrato de uma seleção construída também pela diáspora, por famílias que migraram, por jogadores formados em academias europeias e por uma federação que aprendeu a transformar identidade múltipla em força competitiva. Do lado francês, não há descendentes diretos de marroquinos. O vínculo é mais amplo: a França segue sendo uma fábrica global de talentos, com 99 jogadores nascidos em seu território nesta Copa, mas apenas 23 defendendo os Bleus; seis deles jogam justamente por Marrocos.

França Galarza e Olise discutem
Em jogo de muitos entreveros e nervos à flor da pele, Galarza faz catimba para tentar irritar o francês Olise / Reprodução

A França, portanto, despachou o Paraguai de novo. Mas o próximo adversário exige outra leitura. Contra Marrocos, não será apenas uma vaga na semifinal. Será um jogo entre duas seleções fortes, dois projetos vencedores e duas histórias que, há muito tempo, se encontram antes mesmo de a bola rolar.

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