Há ausências que fragilizam um time. E há ausências que, paradoxalmente, acabam revelando forças que talvez demorassem a emergir. A do volante José Martínez, ainda sem retornar ao Corinthians por questões burocráticas — oficialmente retido na Venezuela pela impossibilidade de renovar passaporte e visto de trabalho, ainda que em clima de férias, como mostram as fotos ao lado da família — se encaixa nesse segundo grupo. Foi um prejuízo evidente no curto prazo, mas também abriu espaço para uma compensação valiosa, talvez sufocada em outro cenário.

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Sem Martínez à disposição, Dorival Júnior foi levado a olhar para dentro. E, ao fazê-lo, encontrou André. Cria do Terrão, o garoto ganhou responsabilidade de gente grande — e não decepcionou. Escalado como titular na final da Supercopa Rei , ele respondeu com maturidade rara para quem ainda está em processo de afirmação no futebol profissional. Mais do que cumprir uma função, André deu sentido ao plano de jogo pensado pelo treinador.

Garoto André assume a posição de volante do Corinthians e se oferece como opção para Dorival Jr. / Corinthians

Taticamente, sua presença foi determinante. Com um físico privilegiado e leitura defensiva apurada, André reforçou o poder de marcação do meio-campo corintiano. Raniele, protegido por esse novo equilíbrio, pôde atuar quase como um terceiro zagueiro, encurtando espaços e dando segurança à última linha. Coube a André vigiar de perto Carrascal e Arrascaeta, reduzindo o raio de ação de dois jogadores fundamentais na articulação adversária.

André e Carrillo

Esse encaixe teve efeito dominó. Carrillo ficou liberado para assumir com mais clareza a responsabilidade pela transição defesa-ataque, organizando o primeiro passe e dando fluidez à saída de bola. À frente, Breno Bidon ganhou liberdade para jogar à imagem e semelhança de Garro, ocupando uma das pontas do losango desenhado por Dorival, aproximando-se de Memphis e Yuri Alberto e qualificando a presença do Corinthians no campo ofensivo.

Martínez ainda continua na Venezuela sem poder deixar o país depois da prisão de Maduro pelos EUA / Corinthians

O desempenho de André, sólido e consistente, dificilmente o fará perder espaço após suas últimas atuações. E isso não é apenas uma boa notícia pontual. Vem a calhar para um clube historicamente reconhecido como formador de jogadores de base, mas que também convive com a tentação — e o peso financeiro — de ir ao mercado em busca de atletas prontos, caros e nem sempre decisivos.

Paciência para formar

O sucesso de André aponta um caminho claro. O Corinthians pode — e talvez deva — equilibrar melhor essa equação. Ter recursos para contratar não deveria excluir a paciência para formar. O que se exige é coragem do treinador para escalar a molecada e compreensão da torcida para atravessar os inevitáveis momentos de oscilação. Dorival tem feito isso, em parte por convicção, em parte pela falta de opções mais prontas num elenco enxuto. Mas o resultado está aí.

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É possível, inclusive, que com Martínez apto para essa decisão, André não fosse sequer escalado. A oportunidade surgiu de forma circunstancial. O garoto aproveitou. O treinador ganhou um reforço primordial. E o clube, talvez sem planejar, recebeu o atestado de que, muitas vezes, a solução está em casa — basta saber esperar a hora certa e ter coragem de usar os filhos do terrão.

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