Isso é Copa do Mundo, amigo! É? Acho que ninguém vai aparecer para o churrasco aqui em casa

...Faz no mínimo uns 13 anos que nós, brasileiros, não vamos a lugar algum juntos...

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Lembro vividamente de um sábado da Copa de 2006, que só não ganhamos porque, na peleia das quartas, alguém ajeitava o meião enquanto o Thierry Henry passeava em nossa área desprovido de preocupações, como quem passeia pelo Quartier Latin.

TUDO SOBRE A COPA DO MUNDO

Às 9h30min, o interfone tocou. Equilibrando o carvão, quilos de alcatra marinados em tempero de festa de igreja e dúzias de cerveja, meus amigos irromperam o pátio. De pé sobre o sofá, onde pregava um lençol para espantar reflexos da televisão, via pela primeira vez aqueles rostos sob a luz da manhã. A Copa do Mundo conseguira a proeza de antecipar a alvorada de jornalistas com hábitos noturnos.

Ficamos oito horas diante da televisão, de onde só saímos para ir até a geladeira pegar mais uma latinha, com escalas cada vez mais frequentes no banheiro. Foi um dia de excessos, mas divertido. Tenho o maior carinho por todos com quem passei aquele dia e outros tantos anos memoráveis.

COPA DO MUNDO VEM AÍ

Muita coisa mudou de lá para cá, sobretudo e inclusive eu. Em parte pela repetição desses excessos, parei de beber e virei vegetariano. Há quem diga que isso, acrescido de duas décadas na idade, tenha me feito um sujeito aborrecido, companhia pouco excitante para quem gosta de Copa do Mundo. Não nego, há em mim um desencanto com forte potencial de me transformar num chato, se é que já não transformou. Ando atento, louco de receio de ver amigos reprimindo bocejos enquanto papeamos.

Mas não vou assumir sozinho a responsabilidade da minha amargura repelente dessas almas festivas, que fervilham de patriotismo a cada quatro anos. Há, aqui e no mundo, uma atmosfera de hostilidade que torna patético esse espírito de congraçamento dos povos. Nem o marketing está dando conta dessa farsa. Até o banco aquele, laranja, desistiu do jingle “Mostra tua força, Brasil, que a raça dessa massa inteira vai junto com você, Brasil”. Faz no mínimo uns 13 anos que nós, brasileiros, não vamos a lugar algum juntos.

AGORA É CADA UM POR SI

Quando vamos sozinhos, embriagados da propaganda da prosperidade fácil em terras estrangeiras – porque o Brasil, com seus impostos e seus ladrões, só atrapalha nossa genialidade e nossa vocação para a riqueza –, somos constantemente lembrados de que, lá, jamais faremos parte da massa inteira. Mas, mesmo quem teima em ficar, viciou em ir sozinho.

Está meio acuado com a insegurança Pública? Compra arma. Problema na escola pública? Homeschooling. Ganha pouco e trabalha demais? Chama sindicalista de vagabundo e compra curso de coach para faturar seis dígitos em três meses. Não ocorre a mais ninguém a construção de saídas coletivas, quem dirá de sonhos.

NINGUÉM NOS INSPIRA

No campo, não temos ninguém que nos inspire, seja pelo talento, seja pela postura. O mais talentoso e combativo namora com uma influenciadora cuja fortuna se compõe em parte pelo incentivo ao jogo de azar; ele mesmo reduzido a um guri de recado das bets em horário nobre. E um dos países que vai receber a Copa? E o Prêmio da Paz da Fifa a um lunático instável? Bem, alertei para minha chatice e amargura. Só não esperava essa nostalgia do tempo em que o interfone tocava às 9h30 da manhã de um sábado lá em casa.

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