Por Savério Orlandi
Como já era pedra cantada, aconteceu na última semana a fissura da Libra após a declaração unilateral do Palmeiras manifestando sua saída do bloco, depois de inúmeras discordâncias que culminaram no acordo que garantiu ao Flamengo um adicional sobre os direitos de transmissão. Os dois protagonistas da última década têm disputado muito neste período dentro e fora de campo, em questões esportivas, aperfeiçoamento da gestão, desempenho econômico e também na busca por liderar ou cravar posições dentro da desordenada tentativa de consolidar as transformações do negócio que se tornou o futebol brasileiro.
A rivalidade vem de longa data e há quase meio século rende um sentimento de ódio entre seus torcedores, acentuado pelo 1 a 4 de 1979, passando pelo troco de 6 a 2 do ano seguinte no mesmo Maracanã e pela batalha do Pacaembu (2 a 2) em 1985, quando entre brigas e bombas na saída do jogo em frente à Praça Charles Miller, uma banca de jornais foi arremessada no ônibus da torcida visitante.

Lamentavelmente, também entre os dirigentes muito barulho tem sido feito na última dúzia de anos, coincidindo com o início dos processos de reestruturação financeira e ressignificação institucional ocorridos dentro dos respectivos clubes e que foram bastante exitosos. Há dez anos, na reta final do Brasileirão (2016) que disputavam, Bandeira de Mello e Paulo Nobre trocavam farpas sem filtro pela imprensa, tendo o último chegado a expulsar aos berros um torcedor adversário que comemorou gol num camarote do Allianz Parque.
Leila versus Landim
Mais recentemente, já sob a gestão de Leila Pereira, houve embates até acalorados entre ela e o ex-presidente Landim, que, ao final, com certo cinismo e muita habilidade passou a encher a bola da sua oponente, encerrando sua passagem em clima sereno. Nada, porém, opôs tanto as direções como o atual enfrentamento de Leila e BAP, o que é compreensível ao examinarmos a gênese destes dois dirigentes e as características pessoais de ambos, dominados por excessiva autossuficiência e extrema vaidade, algo característico desse perfil de ser humano que entende que tudo pode, que tudo sabe e que acha não dever nada a ninguém, ou seja, movidos por detestável egocentrismo.

A propósito, quem esteve no CBF Academy em novembro passado pôde presenciar que tal afetação impediu que dividissem o mesmo palco para o qual haviam sido escalados como painelistas pela organização em um dos mais concorridos debates do evento.
Manobras na política dos clubes
BAP concorreu diretamente para a implosão do grupo originário dos experts, que de forma colegiada no início passou a reescrever a história do Flamengo, enquanto Leila cooptou alguns pares a fim de dar forma ao ardil da abreviação de sua jornada através de uma associação controversa ao quadro social do clube, fato que lhe antecipou a aquisição dos direitos políticos para disputar o cargo que, como simples mortal, só teria condições e legitimidade para fazê-lo no processo eleitoral de 2027.
É sempre necessário relativizar o comportamento deste tipo de pessoa que claramente ama primeiro e de verdade a si mesma antes do próprio clube que dirige, muitas vezes confundindo o sentido real de fazer o certo e melhor para a instituição que representa.

No caso da Libra, na qualidade de uma das fundadoras, Leila se julgou líder natural, usou seus advogados para estruturar o bloco e reputava dele ser dona, tendo sido desafiada por BAP, que vislumbrou brecha e oportunidade para ganhar mais dinheiro, lançando mão, inclusive, de ações judiciais e do bloqueio de contas. O enfraquecimento da Libra, por si só, pode até não ser tão relevante, uma vez que falar em liga no futebol brasileiro é pura anedota, já que se trata apenas de dois grupos reunidos para negociação de direitos de transmissão, descoordenados entre si e sem nenhum tipo de planejamento estratégico que se traduza em um modelo orgânico, sistêmico e estruturante.
Finado Clube dos 13
Contudo, deixa novamente a sensação da falta de amadurecimento e coesão da classe dirigente, incapaz de atuar com tenacidade e desprendimento na assimilação sobre a necessidade de conjugar renúncias em prol de uma atuação conjunta que possa trazer com o tempo mais eficácia, organização e melhores resultados para o negócio que é de todos.
SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
O finado Clube dos 13 derreteu justamente pela força da egolatria e do individualismo de alguns dirigentes, muito embora tenha se formado com maior aglutinação e firmeza de propósitos, não à toa batizou seu campeonato de Copa União: essa unidade, à época, trouxe uma reavaliação e a melhoria dos valores de transmissão, representação através de um bloco uníssono e até o oferecimento de garantias aos clubes em determinadas operações, inclusive de direitos econômicos de atletas.
Esse é o espírito de confraria que deve antes de mais nada ser resgatado pelos clubes e os seus dirigentes na tentativa de encontrar meios para o desenvolvimento deste tão propalado novo mercado futebolístico brasileiro, se não for ultrapassada a discussão interminável do dinheiro e do poder, jamais conseguiremos alcançar uma relevância que tanto se dá, mas que em verdade não se tem.





