Nunca estive com Leila Pereira. Nunca falei com Leila Pereira. Nunca vi de perto Leila Pereira. Nos três anos em que presidi a Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo) pleiteei um encontro com ela para lhe apresentar demandas dos jornalistas em relação, especialmente, aos treinos fechados instaurados por todos os clubes desde a pandemia. Percebendo que o trabalho de Leila Pereira era realmente diferente do que nos entregava a média dos tradicionais “cartolas” do futebol brasileiro, eu via nela a grande oportunidade de restaurar a liberdade que a imprensa deveria ter no trabalho diário da cobertura das atividades dos clubes.

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Infelizmente, meu plano nunca foi adiante. Leila não quis dialogar. Suspeito até que minhas solicitações jamais chegaram até ela de fato, tendo sido barradas antes e vetadas pelo departamento de comunicação do clube, sempre pródigo em blindar dirigentes, atletas e Abel Ferreira. Nada disso, no entanto, muda minha admiração por Leila Pereira e a forma como ela conduz o Palmeiras. Num cenário de terra arrasada da absoluta maioria dos clubes de futebol do Brasil, o Verdão de Leila Pereira é um oásis de bonança e riqueza.

Presidente do Palmeiras, Leila Pereira é eleita pela segunda vez seguida melhor dirigente da América do Sul / Palmeiras
Presidente do Palmeiras, Leila Pereira é eleita pela segunda vez seguida melhor dirigente da América do Sul / Palmeiras

Leila Pereira no topo dos cartolas

Dito isso, a escolha de Leila Pereira, pelo segundo ano consecutivo, como melhor dirigente de clubes da América do Sul pelo Confut Sudamericana reforça uma constatação que já não pode ser ignorada pelo futebol brasileiro: a presidente do Palmeiras se transformou em uma das principais referências de gestão do futebol nacional. O reconhecimento desta semana, conquistado diante de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, do Flamengo, e Stefano Di Carlo, do River Plate, não se explica apenas pelos títulos acumulados pelo Palmeiras nos últimos anos. Está muito mais relacionado à maneira como o clube passou a ser administrado e à capacidade de manter uma estrutura altamente competitiva sem abrir mão da organização financeira.

E talvez esteja justamente aí a maior relevância de Leila Pereira para o futebol brasileiro. Não tanto pelas vitórias em campo, embora elas sejam consequência importante de todo o processo, mas muito mais pela eficiência de sua atuação administrativa. É preciso reconhecer que ela não começou esse trabalho do zero. Quando assumiu o Palmeiras, encontrou um clube que já havia passado pelo processo de saneamento financeiro conduzido por Paulo Nobre e aprofundado por Maurício Galiotte. Mas isso não era garantia de que uma dirigente recém-chegada ao ambiente do futebol conseguiria transformar aquela base em resultados tão expressivos.

Leila conseguiu. Com um perfil diferenciado, autoridade poucas vezes vista no universo da bola e a experiência de quem administrava suas empresas com sucesso, foi além dos antecessores e consolidou o Palmeiras como uma instituição sólida e um time extremamente vencedor. Os seis troféus conquistados pelo clube no Confut deste ano, incluindo o de Melhores Práticas de Gestão, ajudam a dimensionar esse trabalho. Além de Leila, foram reconhecidos profissionais como Anderson Barros, João Paulo Sampaio e o projeto de inovação tecnológica do clube. Não se trata, portanto, apenas da força de uma presidente, mas de uma estrutura administrativa que passou a funcionar de maneira integrada.

Caminho para os rivais

É aí que mora a principal lição para os demais clubes brasileiros. Durante décadas, instituições gigantes foram administradas de maneira quase artesanal, com decisões tomadas de acordo com as circunstâncias ou interesses escusos, dívidas empurradas para o futuro e o desempenho dentro de campo servindo muitas vezes como justificativa para quase tudo. O resultado é conhecido: clubes com torcidas enormes e patrimônio histórico extraordinário, mas financeiramente fragilizados. O Palmeiras fez outro caminho. Leila não inventou a transformação, mas soube dar continuidade ao processo que recebeu, ampliá-lo e preservar uma lógica administrativa capaz de sustentar o clube mesmo diante das oscilações naturais do futebol.

É evidente que dinheiro ajuda e que a estrutura palmeirense também contou com patrocinadores, profissionais qualificados e boas decisões no futebol. Mas dinheiro, sozinho, não administra clube. E é um erro crasso achar que Leila só faz sucesso porque tem dinheiro. O que diferencia o Palmeiras é a capacidade de transformar recursos em estrutura, planejamento e competitividade. É exatamente por isso que o reconhecimento a Leila merece ser analisado para além da torcida palmeirense: como exemplo de que responsabilidade administrativa pode conviver com ambição esportiva.

Há ainda um aspecto que amplia a dimensão de sua trajetória. Leila Pereira é uma mulher ocupando um dos cargos de maior exposição e poder do futebol brasileiro, universo historicamente dominado por homens – e por tudo o que isso representa na forma de machismo e preconceitos. Sua presença no comando do Palmeiras quebra uma barreira que durante muito tempo pareceu natural demais para ser questionada. E não se trata apenas de representatividade. Ela chegou ao topo, enfrentou resistências, assumiu posições e construiu autoridade em um ambiente no qual as mulheres sempre foram descartadas.

João Paulo Sampaio e Leila Pereira
Leila Pereira e João Paulo Sampaio; coordenador das Crias da Academia é eleito o melhor profissional da base / Palmeiras

Olhar crítico

Pode-se concordar ou discordar de Leila, criticar suas decisões, sua comunicação ou determinadas posições públicas. Isso faz parte do debate e é saudável. Uma boa gestão não deve ficar protegida de críticas porque produz resultados. Mas seria impossível ignorar a dimensão do que ela construiu. Sua trajetória representa uma possibilidade para um futebol acostumado a conviver com clubes enormes administrados sem planejamento, sem responsabilidade financeira e, muitas vezes, sem compromisso com o futuro.

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Ainda espero ter a oportunidade de um dia estar diante de Leila Pereira apenas para expressar pessoalmente esse respeito. E quem sabe fazê-la liderar um movimento em favor da liberdade do trabalho da imprensa no dia a dia nos clubes.

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