Chove e o Atlético Mineiro anda embalado na Copa do Brasil. A conjunção desses dois fenômenos atmosféricos me reavivou lembranças de uma tarde úmida que passei nas Gerais, e o andar das coisas indica que talvez não se repita nos dias que me restam.
Lá pelas 16h de quarta-feira, 12 de abril de 2023, nuvens negríssimas engoliram os morros do belo horizonte que dá nome à capital. Li o recado do céu e tratei de buscar abrigo. Quando o aguaceiro enfim desabou, estava espremido debaixo de uma marquise da nervosa Avenida Cristóvão Colombo. A primeira pergunta que fiz à uber que me socorreu, quase como náufrago, levava em consideração a hostilidade do clima.
– Chove dentro do Mineirão?
– Nããã — sibilou a menina, com aquela musicalidade do sotaque mineiro.

Era uma informação tranquilizadora para quem viajara 600 quilômetros de ônibus sem uma troca de roupa sequer, sem reserva de hotel, para ver o meu Xavante, o Brasil de Pelotas, ombrear contra o Galo pela Copa do Brasil. É um modelo de excursão de baixa renda, disseram-me os que foram de avião. Molhado, a volta seria um tormento — inclusive para quem tivesse o azar de comprar a poltrona ao lado da minha.
PROTEGIDO DO MAU TEMPO PELO PADRÃO-FIFA
Às 22h47 dessa mesma quarta-feira, 12 de abril de 2023, mesmo protegido do mau tempo pelo Padrão-Fifa do estádio, tive as costas encharcadas por grossos pingos. Mas, confesso, não me sobrou lucidez para questionar a credibilidade da uber. Quando o testaço do nosso então camisa 3 João Marcus morreu no fundo das redes dos caras, houve um eclipse da alma. É como se tudo ficasse em suspenso: o corpo se move alheio à razão, as cordas vocais vibram, desconexas, promovendo urros animalescos.
O tato foi o único dos sentidos preservado, me fazendo interpretar como chuva a cerveja que caia, torrencial, dos copos arremessados ao alto. Todos lá perdemos as faculdades humanas mais elementares, como mostram as imagens que chegavam, aos montes, pelo uatizápi. Vai levar um tempo para recuperarmos a confiança de quem nos viu pelas imagens da Prime Video. É assim mesmo.
Aos poucos, porém, o calor dos abraços dos amigos vai nos resgatando do transe. Então vem uma espécie de ressaca. Inicia-se um formigamento bem atrás do globo ocular, alguma lágrima derrama, e a gente vai se dando conta do que testemunhou. E o que fez para estar ali.
MEUS 19.853 PASSOS ATÉ O MINEIRÃO
Só fui ver as luzes psicodélicas do Mineirão depois de 19.853 passos, segundo o Google Fit, esse aplicativo que não me deixa espaço para exageros na hora de contar as coisas do Xavante. O mais delirante é que a gente se submete a massacres físicos para depois implorar que acabe aquilo que fomos ver. Queríamos o fim do jogo quando a bola começou a rolar. Depois do gol do João Marcus, tudo parecia correr na lentidão de um dia em Júpiter. Não fosse a alteração no vagar dos minutos e a força da juíza no VAR, o Atlético não teria virado. Tenho certeza que não. Perdemos por 2 a 1. Quinze dias depois, em Pelotas, onde também estive graças ao desemprego travestido de ano sabático, estávamos ganhando de 1 a 0 até os 38 do segundo tempo, quando eles empataram e um vazio de Xavante na Copa do Brasil se instalou, sem data para o fim. Não seria exagero imaginar que seja eterno.
UM JEITO DOCE E IRRESPONSÁVEL DE ESTAR NO MUNDO
Ah, saímos do Mineirão pelo mesmo brete por onde entramos, sob palavras pouco afetuosas da Galoucura. É um cercado que serpenteia por trilhas de barro (lembram que tinha chovido?) e concreto, da esplanada até a catraca do portão. É uma estratégia da Polícia para evitar que torcidas adversárias se encontrem, eliminando-se pela via do darwinismo. Cuidadoso que é, meu amigo Vinícius Colvara viu uns torcedores do Galo vociferando pelas frestas do cercado. Parou e, de olho arregalado, veio perguntando:
– Cadê meu pai!?
Colvara Pai caminhava despreocupado, já fantasiando glórias no jogo da volta, quando foi suavemente posicionado pelo filho para caminhar do lado oposto da cerca. Não satisfeito, Vinícius ainda fez o corpo de escudo, abraçando o pai.
– Vá que joguem uma pedra? — justificou.
Fiquei pensando na beleza desse gesto, doce como uma goiabada das Gerais, e como tudo se relaciona a esse jeito xavante de estar no mundo. A gente até se mete em irresponsabilidades, peca por excesso de esperança, pega caminho errado, mas, se aparece uma pedra, nunca vai faltar abraço.





