Ao frio italiano que primeiro roeu as minhas pretensões de grandeza, dedico como saudosa lembrança estas lágrimas. Parça, algum tempo fiquei pensando se devia abrir essa choradeira pelo princípio ou pelo fim. Não sou propriamente um Brás Cubas, embora lá onde eu nasci haja até uma estação com esse nome, mas arrisco começar também pelo fim. É que não sou propriamente um aposentado, sou um aposentado em atividade branda.
Fui largando mão das coisas por preguiça, cansaço, enfado, tédio; já estava ricaço. Mulheres ao redor me amavam por semanas e uns milhares de euros. Tive filhos, quatro, alguns simultâneos com duas mães, nunca me passou pela cabeça preservar criaturas do que quer que fosse. Sabe como é, a gente tem saudades das coisas que ainda não viveu.

Mas se lhe disser que foi menos a preguiça do que uma ideia grandiosa a causa do meu desânimo, é possível que o parça não creia. Essa ideia era nada menos que a invenção de que meu talento bastaria.
A LONGA MENINICE
Minha meninice é uma das mais longas da história da humanidade, mas, desde que eu era de fato um menino, fui empacotado para aparecer. Não saberia dizer se é algo natural ou ensinado, mas tudo me influiu o gosto de ver impressas nos jornais as letras do meu nome. Fiquei fascinado pelo barulho, pelo cartaz, pelo clarão das câmeras.
E no Mediterrâneo? Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e remontar ao Céu, como uma águia imortal. Era divertido, lucrativo, esportivamente desafiador, mas ali tinha muitos com quem dividir o brilho. Na Gália, para onde migrei em busca de um esplendor particular, fraquejei. Abri o flanco para preguiça, cansaço, enfado, tédio, tentei distrair-me na companhia de alguns fascistas, mas são gente inquieta demais para quem já estava cansado. Ainda catei uns petrodólares antes de voltar para casa.
Opiniático, egoísta, isso fui. Se errei? Arrisco dizer que erro todos os dias, dentro e fora dos campos. Só que os meus erros na vida pessoal resolvo em casa, na minha intimidade, junto à minha família e meus amigos.
TALENTO OU DEDICAÇÃO OU OS DOIS
Esperava encontrar na Baixada um carinho proporcional ao talento que eu supunha bastar-me. Nunca me faltou talento, que sempre julguei suficiente para dispensar-me da dedicação. Na hora a gente resolve, não é assim que fazemos no Brasil?
Confesso ainda uma coisa, parça: nunca fui propriamente contra o esforço. Sempre o admirei nos outros. Parecia-me uma virtude respeitável, útil até, sobretudo para quem precisava chegar a algum lugar. Mas eu já estava lá, julgava poder dispensá-lo. Era um erro de cálculo, mas um erro confortável, desses que a gente só reconhece quando já não servem para nada.
Por isso escrevo este lamento sem intenção de humor, só com a tinta da melancolia.
Não tive convocações, não transmitirei à Copa do Mundo o legado da minha miséria.





