Trabzon é uma cidade turca às margens do Mar Negro, da qual nunca tinha ouvido falar até dar uma caminhada no inverno de Berlim. Foi um passeio imprudente, aquele. A neve descia meio ladeada e, de tanto ter o rosto tropical açoitado pelos flocos, busquei refúgio numa galeria comercial.
Há muitas em Kreuzberg, um bairro curioso da capital alemã. Durante 28 anos e quase três meses, de 1961 a 1989, era o último limiar da Berlim Ocidental. Era um endereço central, ocupado por uma classe média aspirante à elite, que não suportou morar de cara para o muro. Essa turma se foi dali e os aluguéis despencaram, abrindo espaço para a chegada de artistas, punks e imigrantes, especialmente turcos.

O muro caiu e Kreuzberg gentrificou, com hipsters pagando fortunas para morar num lugar cheio de cicatrizes da contracultura e, portanto, instagramável. (Ainda bem que isso só acontece lá, né?) Os turcos ficaram, não como moradores, mas como espírito dessa atmosfera que custa caro e como azeite da engrenagem de serviços. Estão por restaurantes e galerias, como essa para onde fugi do frio, em dezembro de 2012.
ENTRE UMA TESOURADA E OUTRA
Ali havia uma barbearia, cromaticamente inesquecível. Tudo era grená e azul calcinha, em homenagem ao Trabzonspor. Enquanto sentia o sangue voltando a circular, num calor que me salvava da necrose de pés e mãos, conheci o dono, Ömer. Entre uma tesourada e outra, falava do clube com uma cadência amorosa, que percebi mais pela linguagem corporal e pela respiração do que pelo meu precário inglês.
O peito estufava, os músculos do rosto se contorciam involuntariamente até formar um sorriso. Ömer era incapaz de falar do Trabzonspor sem expressar, até aos mais desatentos, o quanto o clube é parte do que ele é, no que há de mais íntimo. É uma paixão que, como tal, pulsa à revelia do que se passa em campo. Naquela temporada, o Trabzonspor ficou em nono lugar no Turcão e, na Supercopa deles, levou fumo do Fenerbahçe. Quem torce para um time do interior sabe a dor que é perder para um imperialista da capital, mas é algo que lateja rapidamente. Em seguida, como Ömer, se está pronto para outra.
SALAH, 34 ANOS
Lembrei do barbeiro de Berlim quando vi Salah, aos 34 anos, ainda com muita lenha para queimar, trocar o Liverpool pelo Trabzonspor. Talvez tenha pesado o dinheiro, talvez o projeto esportivo. Talvez não. Gosto de imaginar que exista também outra remuneração, impossível de converter em libras ou liras: a de vestir uma camisa que explica um lugar, um povo, um jeito de estar no mundo.
Se isso não pesou, tudo bem. Capturo mesmo assim o pretexto romântico, para dizer que Salah encontrou muito mais do que um clube. Encontrou milhares de Ömers espalhados entre Trabzon, Kreuzberg e tantos outros rincões, gente que insiste em enxergar numa camisa um pedaço de casa.





