O Brasil perdeu neste sábado, dia de futebol, seu maior cronista. Luis Fernando Verissimo nos deixou aos 88 anos. Se você nunca leu Verissimo, não sabe o que está perdendo. Suas crônicas são ótimas. E digo isso como mero leitor, sem qualquer pretensão de uma análise estruturada de quem já estudou seus textos ou seu estilo de escrever. Verissimo cobriu pelo jornal O Globo três Copa do Mundo. De modo que numa delas, a de 2002, na Coreia do Sul e no Japão, eu fazia parte da equipe e tive a honra de conviver com ele durante pouco mais de um mês. Ele chegou vindo de uma feira literária na Austrália.

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Eu era repórter do jornal Diário de S.Paulo, que pertencia às Organizações Globo na época. Fui o único paulista a me juntar ao time de O Globo naquela Copa. Ficamos a maior parte do tempo na cidade metalúrgica de Ulsan, na Coreia do Sul, onde a seleção brasileira de Felipão montou sua base. Verissimo “era um de nós” da cobertura, se é que posso dizer isso. Na verdade, ele era o Verissimo, e todos nós, repórteres atrás de informação. Tadeu Aguiar era o nosso coordenador. Foi ele que teve de dizer ao Verissimo que todos tínhamos de dormir num motel coreano improvisado na cidade. Era um motel vertical em atividade, uma vez que alugamos apenas parte dos quartos disponíveis em dois andares. Verissimo levou numa boa.

Luis Fernando Verissimo, Robson Morelli e Fernando Calazans na cobertura da Copa do Mundo de 2002 / Arquivo Pessoal

Aquela Copa do Mundo teve uma particularidade: todos os jogos do Brasil ocorreram em cidades diferentes. Então, depois da fase de preparação e, principalmente, na parte jogada no Japão, o nosso time montava e desmontava o acampamento. Fazia e desfazia malas. E sempre ia de ônibus próprio para as cidades. Havia um karaokê no busão. Verissimo não se empolgava, mas também não reclamava nem tirava o sorriso do rosto.

Um “colega” de trabalho

O outro colunista que estava com a gente era Artur Xexéo, que nos deixou mais cedo, em junho de 2021. Mas Xexéo era mais inquieto, divertido e com tiradas sensacionais de tudo e de todos. Verissimo não era de falar muito. Parecia que nada o incomodava. Andava a passos lentos, sem desperdiçar energia. Ele levou para aquela cobertura sua mulher, dona Lúcia, com quem se casou em 1963. uma simpatia de pessoa, mas o oposto do marido.

Luis Fernando Verissimo morreu neste sábado, dia 30 de agosto, aos 88 anos: ele deixa mulher e três filhos / Divulgação

Dona Lúcia era conversadeira nos cafés da manhã, onde a maioria se reunia antes da labuta. Falava por ela e por Verissimo. Falava dele, dela, dos filhos (três ao todo, duas meninas e um menino)… Era animado como nós. Agora imagine a minha alegria de ter Luis Fernando Verissimo não como um entrevistado, mas como um “colega” de trabalho. Era o Verissimo, pô!

Torcedor do Inter

Lembro-me que sentávamos, por vezes, lado a lado na sala de imprensa para escrever. Mas os sites onlines ainda engatinhavam, não havia redes sociais nem streaming. Vídeo era coisa de TV. Havia, basicamente, jornal, TV e rádio. Então, ficava imaginando o que Verissimo estava escrevendo, o que só ele tinha captado naquele treino ou jogo… Quem seria o seu personagem? Foram dias divertidos e de conquista do penta. Tempos que não voltam mais.

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Portanto, hoje é um dia triste para os brasileiros que aprenderam a admirar Luis Fernando Verissimo. Assim, divido com os amigos essas curtas histórias que guardo na memória com carinho de um trabalho ao lado desse grande escritor, torcedor do Inter e apaixonado pela vida e por pessoas, que tão bem soube retratá-las em suas crônicas. Fica aqui o abraço à dona Lúcia.

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