Eles encararam estádios com lama, neve e pouca grama. O mundo era outro. Era começo do século passado. Eles surpreenderam os estrangeiros com vitórias convincentes e até algumas goleadas. A exposição “Os Reis do Futebol” – o Club Athletico Paulistano na Europa em 1925 retrata a primeira excursão de um time brasileiro de futebol no continente europeu. Na época, os atletas brasileiros surpreenderam França, Suíça e Portugal, com nove vitórias em dez apresentações contra as equipes locais. Não havia Copa do Mundo da Fifa nem o Brasil era campeão mundial. Mas nossos jogadores já se mostravam habilidosos e competitivos.

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O fato mereceu uma intensa cobertura da imprensa nacional e também internacional. Os jornais franceses chamaram os jogadores do time paulista de “Reis do Futebol”, um apelido muito antes do que os brasileiros representariam na Europa nas décadas seguintes. O nome de destaque daquela jornada histórica foi o do atacante Arthur Friedenreich (1892-1969), que ficou conhecido como “El Tigre”. Ele foi o primeiro ídolo do futebol brasileiro antes do profissionalismo, em 1933. Fried, como era chamado, foi o artilheiro da turnê com onze gols.

Exposição reconta trajetória da histórica excursão do Paulistano, de Friedenreich, na Europa em 1925 / Museu do Futebol

A exposição reuniu bolas, taças, malas de viagens, fotos e outros objetos utilizados durante a histórica viagem. Contudo, a maioria dos itens foi cedida pelo acervo histórico do Paulistano. A exibição está na Zona Mista do Museu do Futebol (praça Charles Miller, s/n, Pacaembu, São Paulo) até o dia 5 de abril.

Um clube da elite

Fundado em dezembro de 1900, o Club Athletico Paulistano era o símbolo da elite cafeeira de São Paulo. O time reinou no futebol regional antes do profissionalismo. Entre 1916 e 1919, a equipe conquistou quatro títulos paulistas consecutivos, um fato que permanece único na história do Estadual até hoje. Além disso, o clube continua sendo o quinto maior campeão do Campeonato Paulista.

O Museu do Futebol reuniu bolas, troféus e documentos que comprovam a trajetória do clube em 1925 / Museu do Futebol

O Paulistano encerrou suas atividades no futebol em 1929 porque se recusou a aderir a profissionalização do esporte. Preferiu ficar no amadorismo com suas lembranças. Após a dissolução do seu time, parte dos jogadores e dirigentes se reuniu com membros da Associação Atlética das Palmeiras para fundar o São Paulo Futebol Clube. Mas essa é outra história.

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Para entender melhor a exposição no Museu e esse período do futebol brasileiro tão saudoso e importante, The Football conversou com a historiadora Marília Bonas, diretora técnica do Museu do Futebol, em São Paulo, e uma das responsáveis pela exposição.

The Football: Como surgiu a ideia de fazer uma exposição sobre a excursão do Paulistano em 1925?

Marília Bonas: O Museu do Futebol tem esse desafio por falar do esporte como um todo e contar a história dos clubes que são milhares no Brasil inteiro. Então, a gente encontrou esse caminho a partir da colaboração do nosso conselheiro Jaime Franco, que é sócio do Paulistano. Ele nos levou a essa primeira mostra que foi feita lá dentro do clube. É a nossa primeira exposição nessa área, que foi inaugurada com a renovação do Museu em 2024. Ela se chama de Zona Mista.

Qual foi a importância dessa excursão para o futebol paulista da época?

A gente sabe como o futebol brasileiro é importante para o mundo e como isso faz parte da nossa identidade. E onde isso começa? Isso começa com a excursão do Paulistano em 1925. Então, pra gente no Museu do Futebol, trazer a primeira ocasião em que o futebol brasileiro percorre o mundo sobre aplausos e sobre admiração é algo relevante. É muito importante para localizar no tempo essa construção histórica do futebol brasileiro como uma marca de identidade do país.

Existem coisas relacionadas ao Friedenreich? Qual a importância dele naquele time?

A gente tem uma mala de viagem do Friedenreich. E ele é uma figura muito importante. Ele é filho de um pai branco de descendência alemã e de uma mãe negra. Tudo isso dentro de um contexto em que os negros estavam começando a ser aceitos a partir da luta de vários atletas para poder jogar no Brasil. A própria dinâmica, a própria presença dele dentro desse contexto “branco” é uma grande marca para esse futebol brasileiro com a sua diversidade. A mala do Friedenreich é um objeto de destaque porque é centenária e tem várias marcas da viagem.

A mala utilizada pelo jogador Arthur Friedenreich na excursão do Paulistano a Europa está na exposição / Museu do Futebol

Quais são os itens mais raros da exposição?

Acho que a curadoria do Marcelo Duarte e da Ana Paula Fernandes fez uma seleção muito fina do acervo do clube Paulistano. É um dos acervos mais importantes de clube no Brasil. Ademais, a gente traz objetos dos jogadores, as bolas usadas e também uma série de documentos originais como cardápios, cartões postais, troféus, fotos, entre outros. Todos expostos com todo cuidado museológico dada a fragilidade desse material e a idade desse material.

Quais foram as maiores dificuldades?

O principal desafio consistiu em alinhar os conteúdos à ocupação de um novo espaço expositivo, conciliando as demandas da comunicação visual com as especificidades da expografia. Além disso, foi fundamental garantir as condições adequadas de conservação do acervo, considerando que cada item exige tratamentos distintos conforme seus materiais, como papel e couro.

Como está sendo a resposta do público?

O público está sendo muito surpreendido, né? Porque acho que tem essa ideia mesmo que o futebol brasileiro é internacional desde sempre. Então, descobrir, que ali em 1925 foi feita uma viagem… O que é uma excursão de navio? E o impacto disso na volta, no retorno… Isso é muito importante. Quando o Paulistano volta dessa viagem, ele é celebrado por todos os clubes: recebe troféus, homenagens de times porque isso era importante neste contexto mais amplo. Então, o público descobriu que isso foi um grande acontecimento da história do futebol brasileiro e as pessoas em geral nem imaginavam esse fato. Isso tem sido a grande conquista dessa pequena mostra.

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