O futebol tem dessas ironias que parecem escritas de propósito. Há praticamente um ano, Vasco e Santos também se encontraram pelo Campeonato Brasileiro cercados pela preocupação com a parte de baixo da tabela. Naquele 17 de agosto de 2025, porém, o que aconteceu no Morumbis ultrapassou qualquer previsão: o time carioca atropelou o Peixe por 6 a 0, aplicou a maior goleada da história do confronto e impôs a Neymar a derrota mais elástica de sua carreira. O resultado ainda provocou a demissão do técnico Cléber Xavier. Neste domingo, 16 de agosto de 2026, os papéis se inverteram. Não houve seis gols, tampouco uma goleada com a mesma dimensão histórica. Mas, considerando o momento do Santos, o 3 a 0 em São Januário carregou peso muito maior do que uma simples vingança esportiva.

Tudo sobre o Santos

Foi a primeira vitória santista como visitante neste Brasileirão. Foi o primeiro jogo de Neymar longe de casa na competição. Foi o triunfo que tirou o Peixe da zona de rebaixamento. E aconteceu justamente contra um adversário direto, que começou a rodada com os mesmos 22 pontos e permaneceu atolado no Z4. Talvez esteja aí a maior diferença entre os dois encontros. Há um ano, o Vasco deixou o Morumbis comemorando não apenas uma goleada histórica, mas também sua saída da zona de rebaixamento. Neymar, por sua vez, deixou o gramado chorando, consolado por Fernando Diniz, então treinador vascaíno. Dessa vez, foi o camisa 10 quem ajudou a aumentar o clima pesado na Colina.

Santos Luan Peres e João Schmidt
Autor do terceiro gol, Luan Peres, acompanhado por João Schmidt, festeja ao decretar a vitória em São Januário / Santos FC

Valeu, Léo Jardim!

E nem foi necessário que marcasse. Neymar teve uma participação diferente, mas igualmente decisiva. Em duas cobranças de falta no segundo tempo, obrigou Léo Jardim a rebater. Nas duas, jogadores santistas apareceram mais atentos do que a defesa vascaína: primeiro Willian Arão; depois Luan Peres. Se alguém procurava uma imagem para explicar a vitória do Santos, ela estava ali. Um time que durante boa parte da temporada pagou caro por seus próprios erros soube, desta vez, explorar os erros do adversário.

Antes disso, porém, precisou sobreviver. O Vasco teve maior volume durante boa parte da partida. No primeiro tempo, ficou mais com a bola e finalizou dez vezes, enquanto o Santos pouco conseguiu transformar suas escapadas em perigo real. Caballero ainda acertou o travessão, mas a sensação era de um jogo mais confortável para os donos da casa do que para quem precisava desesperadamente quebrar o jejum como visitante.

O segundo tempo manteve o confronto aberto até acontecer o lance que mudou completamente sua história. Pumita Rodríguez, que acabara de entrar, acertou a trave. Por alguns centímetros, o Vasco não abriu o placar. No ataque seguinte, o castigo. Rollheiser ganhou pelo alto e encontrou Gabigol, que apareceu diante de Léo Jardim para fazer 1 a 0 aos 23 minutos. Um gol que também carregava sua própria contextualização.

Gosto pelos gols

Três dias antes, Gabigol havia chegado ao centésimo gol com a camisa do Santos na vitória por 2 a 1 sobre o Macará, na Vila Belmiro, pela ida das oitavas de final da Sul-Americana. Neymar deu a assistência naquele lance. Contra o Vasco, novamente a dupla esteve no centro da recuperação santista, ainda que de maneiras diferentes. Mais leve e solto, o Santos construiu os dois gols em jogadas de bola parada. Aos 31 minutos, Neymar cobrou falta pela esquerda, Léo Jardim rebateu e a bola encontrou Willian Arão. O volante, outra vez improvisado como zagueiro por Cuca, fez o segundo. Quatro minutos depois, roteiro praticamente repetido: outra falta de Neymar, outra defesa incompleta do goleiro vascaíno e Luan Peres apareceu para transformar uma vitória importante em goleada.

Santos Willian Arão
Oportunista como zagueiro, Willian Arão pega gosto de artilheiro e anota um gol no segunda partida seguida / Santos FC

Também existe outro dado que torna o resultado ainda mais simbólico: o Santos já havia derrotado o Vasco por 2 a 1 no primeiro turno deste Brasileiro, na Vila Belmiro, com dois gols de Neymar. Ou seja, depois de sofrer o traumático 6 a 0 em agosto do ano passado, o Peixe levou os seis pontos do rival nos dois encontros pela competição em 2026. Nada disso significa que os problemas desapareceram. O Santos ainda está inserido numa luta contra o rebaixamento que promete acompanhar o clube por muitas rodadas.

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A própria tabela mostra como qualquer sequência negativa pode devolver rapidamente uma equipe ao Z4. E há ainda a Sul-Americana: depois de vencer o Macará por 2 a 1 na Vila Belmiro, o time decidirá a classificação às quartas de final no Equador. Mas o cenário agora permite respirar. Dois jogos, duas vitórias em poucos dias. Gabigol marcando novamente. Neymar decisivo. A primeira conquista fora de casa no Brasileiro. E três pontos arrancados de um concorrente direto.

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