É difícil chegar a uma conclusão sobre os caminhos das bets no futebol brasileiro. O governo Federal quer acabar com a jogatina no país e os clubes e entidades esportivas defendem a necessidade de o esporte, de modo geral, precisar das receitas que vêm das casas de apostas e suas marcas. É preciso entender que as partes estão defendendo os seus interesses: as bets precisam de visibilidade do futebol e o futebol precisa do dinheiro das apostas. Isso parece claro para todos. Nesse momento, os clubes passam o pires e atrasam suas contas de norte a sul do Brasil.

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O governo entra nessa história tardiamente, e de forma estapafúrdia. O presidente Michel Temer abriu as portas para as bets no país, sancionando a lei que criou a modalidade (2018), Jair Bolsonaro deixou a coisa correr solta (2019-2022) sem que tomasse nenhuma medida administrativa e o próprio Lula (2023-2026) efetivou a regulamentação do mercado brasileiro de apostas e tirou as casas da clandestinidade com a Lei 14.790/2023 e suas taxas. Havia dinheiro entrando no mercado desenfreadamente, inclusive na comunicação de baixa qualidade, sem responsabilidade e atingindo menores de idade e brasileiros despreparados para controlar a vontade de jogar e  a ânsia de ganhar uns trocados.

Vini Jr., do Real Madrid e da seleção, é um dos garotos-propaganda de uma marca de bet no Brasil / Reprodução

As apostas chegaram a todo vapor, diretamente do celular das pessoas, de dentro de suas casas ou de qualquer lugar. Ou seja, não era preciso sequer sair de casa para fazer uma fezinha com a “certeza” de ganho fácil, sem pensar nas consequências que isso poderia provocar nas famílias brasileiras e no mental das pessoas. Meia dúzia de propagandas alertando para o perigo do vício não foi suficiente para evitar o pior: a dependência e a patologia dos seus apostadores compulsivos. Tão pouco o alerta “jogue com responsabilidade” antes de cada programa esportivo patrocinado pelas marcas de bets.

Taxa de R$ 30 milhões

Agora, vendo o estrago dos gastos das famílias de baixa renda e os “novos doentes” pelos jogos de apostas que o país ganhou, o governo tenta intervir desesperadamente. Mas o próprio governo, em suas devidas esferas, recebeu com gosto as taxas de R$ 30 milhões por cinco anos de licença para a operação das bets. Nada foi pensando como deveria. Foi tudo se acomodando até chegar nesse ponto. E agora tenta-se acabar da mesma forma: abruptamente. Mas há contratos vigentes, compromissos assumidos e acordos feitos.

É difícil entender o futebol sem as bets hoje, mas também é um absurdo afirmar que ele vai morrer sem o dinheiro das casas de apostas. São duas inverdades. O futebol sobrevive há mais de um século sem as receitas das bets e pode continuar assim por mais 100 anos. O que falta é gestão, novos mercados, folhas mais baixas, salários mais condizentes com a realidade do Brasil e dos próprios clubes. O Flamengo, o clube mais bem pago do país por bet, tem 20% de sua receita anual vindo dessa fonte pagadora. O Palmeiras ganhou R$ 100 milhões com uma casa de aposta e teve receita em 2025 de R$ 1,7 bilhão.

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Portanto, as narrativas puxam a brasa para suas respectivas sardinhas. O torcedor já entendeu isso. O que vale, por exemplo, o Corinthians ter tanto dinheiro de bet (R$ 150 milhões) e viver em crise, sem nada na conta corrente e com salários atrasados dos seus atletas? Não é o dinheiro das casas de apostas que sustentam o futebol brasileiro. É a gestão dos clubes e a sua capacidade de fazer receitas.

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