Há derrotas que doem pelo resultado em si, mas doem mais pelo que elas revelam. Para o Corinthians, o 1 a 0 diante do Santos, neste domingo, na Neo Química Arena, não deixa dúvidas sobre a fragilidade do elenco e a falta de respostas do material humano que o técnico Fernando Diniz tem à disposição. Mesmo diante de um Santos também fragilizado, que vinha de um amasso diante do Palmeiras, o Corinthians perdeu mais um clássico em casa e, pior, voltou a expor feridas que parecem longe de cicatrizar.
Foi a terceira partida consecutiva sem vitória do Corinthians em sua própria casa. Uma sequência que começa a incomodar a torcida e que ganha um peso ainda maior porque o time teve uma semana inteira para trabalhar antes do clássico. Não dá nem para usar isso como desculpa. Diniz tentou tornar o Corinthians mais ofensivo. Na teoria, colocou em campo praticamente um 4-2-4, com Kaio César e Dieguinho abertos pelos lados e Rodrigo Garro e Memphis Depay mais próximos, ocupando a faixa central do ataque. Na prática, porém, a ideia foi um fiasco.

O Corinthians não conseguiu transformar a posse de bola em perigo. Errou passes demais, encontrou um Santos bem organizado pela frente e, sobretudo, mostrou um posicionamento confuso de seus quatro homens de ataque. As peças estavam lá, mas não havia conexão entre elas. A rigor, o único lance perigoso no primeiro tempo nasceu de uma investida individual. Bidu entrou na área pela esquerda e chutou rente à trave de Gabriel Brazão. Muito pouco para um time que jogava em casa, diante de um rival que precisava do resultado, e que não vencia esse clássico pelo Brasileirão em São Paulo havia mais de uma década.
Diniz caiu na arapuca de Cuca
Do outro lado, Cuca armou uma arapuca. E Diniz caiu nela. O Santos povoou o meio-campo, fechou os espaços pelos quais o Corinthians pretendia avançar com seus laterais e se organizou para explorar o contra-ataque. Neymar flutuava entre as linhas, enquanto Gabigol permanecia à espera de uma bola lançada às costas dos zagueiros. Funcionou. Gabigol chegou a marcar na metade do primeiro tempo, mas o gol foi corretamente anulado por impedimento. O aviso, porém, estava dado: o Santos sabia o jogo que queria jogar. E o Corinthians, não.
O castigo pela pouca eficiência corintiana veio aos 32 minutos. E teve a assinatura de quem costuma aparecer quando o jogo fica grande: Neymar. Pouco antes, o atacante havia tocado poucas vezes na bola e demonstrava a conhecida falta de mobilidade de quem ainda tenta recuperar a melhor condição física. Mas bastou um momento de inspiração para fazer toda a diferença. Na cobrança de uma falta frontal, Neymar bateu com estilo. A bola explodiu na trave e voltou limpa para Oliva, que havia acabado de entrar no lugar de Gustavinho. O uruguaio só teve o trabalho de empurrar para as redes.
Santos joga igual após o gol
Clássico é assim. Pode ser truncado, amarrado, pobre em futebol durante longos períodos. Até que um detalhe quebra a lógica. No segundo tempo, Cuca não tinha motivo algum para mudar o roteiro. O Santos continuou aplicado, compacto, disciplinado na marcação e disposto a aceitar a pressão do Corinthians. O time santista entregou a bola ao adversário e fechou os caminhos para o gol.

O Corinthians foi para cima. Mas foi para cima como quem procura uma saída no escuro. Sem repertório, sem alternativas e já tomado pelo desespero, passou a apostar cada vez mais nas bolas levantadas para a área. A entrada de Pedro Raul foi quase uma confissão de impotência: se não havia espaço para construir por baixo, que se tentasse resolver por cima. E aí o torcedor corintiano assistiu a um filme que já conhece.
Bola na área
Bola para a área. Mais uma bola para a área. Outra bola para a área. A esperança de que alguém aparecesse para ganhar uma cabeçada, um rebote ou um lance fortuito. O Corinthians até criou algumas situações, mas nenhuma delas exigiu de Gabriel Brazão uma defesa importante. O Santos resistiu sem precisar se desesperar. O Corinthians pressionou sem conseguir sufocar. E o relógio foi se tornando um inimigo ainda maior. No fim, a torcida perdeu a paciência e cobrou raça, empenho e atitude dos jogadores. O golpe foi sentido. Garro, um dos principais personagens do time, resumiu o sentimento depois da partida: “Temos de ter autocrítica e trabalhar. Não dá pra fazer outra coisa.”
Talvez seja isso. O Corinthians precisa trabalhar. Mas precisa também encontrar respostas que não parecem estar no elenco. Porque o problema não é apenas perder para o Santos. É olhar para o banco e perceber que, quando o plano inicial não funciona, as opções para mudar a história são escassas. Diniz mexe, troca peças, altera funções, mas continua trabalhando com as mesmas ferramentas. Enquanto o Corinthians termina a noite mergulhado em dúvidas, o Santos sai da Neo Química Arena respirando. O resultado dá ao time de Cuca um respiro precioso na luta contra o rebaixamento. Mais do que três pontos, é uma vitória que pode devolver confiança a um elenco que precisa de resultados para acreditar que ainda pode escapar do sufoco.
Neymar foi bem
E, no centro de tudo, Neymar parece disposto a provar que ainda tem lenha para queimar. O craque ganhou o duelo particular com o amigo Depay. Não precisou correr mais, tocar mais vezes na bola ou participar de todas as jogadas. Precisou apenas aparecer no momento em que o jogo pediu um jogador diferente.
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Foi o que se esperava dele. Depois da partida, Neymar falou sobre o prazer de disputar jogos grandes e deixou claro que ainda se enxerga capaz de ser protagonista em noites como essa. “Sempre gostei de jogo grande, que mostra quem são os melhores jogadores. Na minha carreira sempre foi assim. Infelizmente, nos últimos tempos, passei machucado.” E Neymar foi além. Tão otimista quanto o torcedor santista gostaria de estar, já projetou a possibilidade de uma remontada diante do Palmeiras, na quarta-feira, pela Copa do Brasil. “Será mais um jogo na vida. Vamos nos divertir.” Pode parecer exagero acreditar em uma remontada depois da derrota por 3 a 0 no primeiro jogo. Mas futebol também é feito dessas ilusões. E o Santos precisava de alguma delas.





