Através de uma nota oficial assinada pelo presidente Osmar Stabile, o Corinthians anunciou nesta terça-feira que não vai renovar o contrato de Memphis Depay. O clube encerra, assim, uma negociação que se arrastou durante meses e que teve tantos capítulos, versões, possibilidades e idas e vindas que já era difícil saber, de fora, onde terminava a estratégia e começava a realidade. Ou o que era verdade e o que era mentira nas versões apresentadas pelo clube.

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A justificativa oficial é financeira. E não há como ignorar a situação do Corinthians. Com o caixa esfacelado, dívidas acumuladas e transfer bans que impedem até a contratação de novos jogadores, assumir um compromisso milionário com Memphis evidentemente exige responsabilidade. O clube afirma que a decisão foi tomada ‘única e exclusivamente’ em consideração à saúde financeira da instituição.

Memphis Depay Corinthians
Decisivo na Copa do Brasil e Paulistão, Memphis Depay é visto como alto custo e não tem contrato renovado / Corinthians

Memphis, a saga

É uma explicação perfeitamente compreensível do ponto de vista administrativo. O problema está em tudo aquilo que aconteceu antes dela. Porque, se financeiramente a decisão representa um alívio para o Corinthians, tecnicamente a perda é gigantesca. Fernando Diniz disse no domingo que contava com Memphis para o restante da temporada e chegou a admitir a possibilidade de o jogador ser inscrito para os confrontos da Libertadores que começam nesta quinta-feira contra o Rosario Central.

Será que Diniz também foi enganado? Iludido? A pergunta não é provocação. É consequência natural da maneira como o caso foi conduzido. Memphis não é apenas mais um jogador que deixa o elenco. É um dos poucos atletas do Corinthians capazes de decidir um jogo pela qualidade individual. Sua saída acontece justamente quando o time vai disputar uma Libertadores sem poder recorrer ao mercado para encontrar uma reposição, porque os problemas financeiros e os bloqueios que pesam sobre o clube continuam impedindo novas contratações.

Ou seja: o Corinthians perde um jogador importante e não tem, neste momento, condições de colocar outro no lugar. E é justamente aí que a novela de Memphis começa a ficar mal explicada. Durante meses, o torcedor ouviu que havia negociação. Depois, que havia dificuldades. Em seguida, que as partes estavam próximas. Mais tarde, que alguns detalhes ainda precisavam ser resolvidos. Até que surgiu a informação de que Corinthians e estafe do jogador haviam chegado a um acordo e que o contrato estava praticamente pronto para ser assinado. Vai ser assinado amanhã, era o mantra que se repetia de manhã e se negava na manhã seguinte.

Memphis em treino do Corinthians
Memphis se despede com 79 jogos, 20 gols e títulos: Paulistão Copa do Brasil e a Supercopa Rei / Corinthians

Explicações questionáveis

E, quando parecia que a novela finalmente chegaria ao fim, o Corinthians decidiu não renovar. É normal que uma negociação desse porte fracasse. É legítimo que um dirigente mude de ideia diante da responsabilidade de ter que honrar um contrato milionário num clube sem dinheiro para pagar salários. É legítimo que, diante dos números colocados sobre a mesa, o presidente conclua que o clube não pode assumir determinado compromisso. O que não parece legítimo é deixar durante tanto tempo a impressão de que a renovação caminhava para um desfecho positivo quando, aparentemente, ainda havia uma dúvida fundamental dentro do próprio clube sobre a conveniência de assinar o contrato.

A nota oficial tenta colocar um ponto final na história. Diz que prevaleceram ‘motivos exclusivamente financeiros’ e que a decisão foi necessária para preservar o futuro do Corinthians. Mas algumas perguntas não desaparecem com uma nota oficial. Se o compromisso era financeiramente incompatível com a realidade do clube, por que a negociação avançou — ou se arrastou — tanto? Se a permanência era considerada inviável, por que o treinador ainda contava com o jogador para a sequência da temporada? Se o contrato chegou a estar pronto para assinatura, o que mudou de maneira tão decisiva? E, principalmente: em algum momento alguém contou para a torcida exatamente o que estava acontecendo?

Aula de jornalismo

É aqui que a história me faz lembrar de um velho jornalista esportivo, daqueles que fizeram escola nas redações de outros tempos. Ele costumava desafiar os repórteres mais jovens com tarefas que pareciam impossíveis. Chegava à redação e decretava: — Hoje quero uma entrevista com Pelé. E outra com Maradona.

O repórter, naturalmente, argumentava que aquilo era muito difícil. Como conseguiria falar com personagens daquele tamanho? O velho jornalista apontava então o caminho das pedras: — Pega o telefone e liga para ele. A chance de ele dizer sim é de cinquenta por cento. Os outros cinquenta por cento são de ele dizer não. E, sorrindo, completava: — É quase como querer namorar a Xuxa. Liga para ela e pede em namoro. Você tem 50% de chance de ela aceitar. Então vinha a ressalva, que era a melhor parte da história: — No caso da Xuxa só tem um problema: ela aceitar.

Modo enrolação

Pois, olhando para trás, dá a impressão de que o Corinthians entrou na negociação com Memphis mais ou menos assim: fez uma proposta torcendo para que o jogador não aceitasse. O problema é que ele aceitou. E, quando Memphis disse que topava as bases discutidas, a história mudou de figura. O que antes parecia uma negociação difícil passou a ser um compromisso que precisava ser assinado. E aí apareceu o problema que o velho jornalista já conhecia muito bem: a falta de capacidade para levar adiante o compromisso nas bases acordadas.

Memphis Osmar Stabile, presidente do Corinthians
O presidente do Corinthians, Osmar Stabile, alega problemas financeiros e  não renova o contrato de Memphis / Corinthians

É claro que isso é uma interpretação. Não se pode afirmar que o Corinthians tenha feito uma proposta apenas para provocar uma recusa de Memphis. Não há elemento concreto que permita dizer isso. Mas é exatamente essa impressão que fica quando se olha para a sequência dos acontecimentos. Repito, o Corinthians tem todo o direito de dizer que não pode pagar. O clube tem obrigação, aliás, de não assumir compromissos que não possa honrar. A situação financeira chegou a um ponto em que qualquer decisão precisa passar pelo caixa.

Mas responsabilidade financeira não combina com falta de transparência. Se não havia dinheiro para renovar, era preciso dizer isso desde o começo. Se havia dinheiro, mas não havia disposição para assumir o compromisso, era preciso dizer isso. Se a proposta dependia de condições que poderiam inviabilizar o acordo, era preciso dizer isso. O que não ajuda o Corinthians é manter a torcida durante meses dentro de uma espécie de neblina, acompanhando uma negociação em que cada capítulo parece contradizer o anterior.

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E talvez essa seja a maior derrota dessa história. Não a saída de Memphis. Nem mesmo o dinheiro que o Corinthians deixará de gastar. A derrota é a sensação de que, mais uma vez, o torcedor foi colocado no fim da fila quando o assunto era saber o que realmente acontecia dentro do clube. Memphis vai embora levando consigo 79 jogos, 20 gols e três títulos importantes: o Paulistão e a Copa do Brasil de 2025 e a Supercopa Rei de 2026, números que o próprio Corinthians fez questão de destacar na nota de despedida. O caso de amor entre Memphis e o bando de loucos, no entanto, acabou com um final infeliz.

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