Não foi só a histórica rivalidade que elevou o nível de tensão do confronto entre Corinthians e Palmeiras no domingo, em Itaquera. Houve uma soma de agentes externos que ajudaram a jogar gasolina numa fogueira já acesa por natureza. O que se viu foi um jogo contaminado por provocações em excesso, xingamentos, pontapés, cotoveladas, ameaças, reclamações e enfrentamentos que ultrapassaram o campo de jogo e avançaram pelos corredores do estádio.

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As cenas do pós-jogo na área de acesso aos vestiários — lamentáveis, diga-se — são a prova mais evidente de que o dérbi não terminou no apito final. E, pior, ele continua em aberto, reverberando agora no território inflamável das redes sociais. Para além das reclamações tradicionais contra a arbitragem, sempre prontas a alimentar versões conflitantes de um mesmo lance, há um cenário mais grave de tensão.

Dérbi ainda não acabou: a partida de volta agora vai ser no estádio do Palmeiras, no returno do Brasileirão / Palmeiras

Nesse terreno, emerge um inaceitável ato de racismo contra o goleiro Carlos Miguel — até outro dia ídolo, hoje tratado como traidor em Itaquera. Preconceito racial é crime. E como tal precisa ser tratado, investigado e punido exemplarmente dentro da casa corintiana. Da mesma forma, cabe ao Ministério Público apurar as denúncias de agressões físicas relatadas por jogadores de ambos os lados ao fim da partida. Nada disso dialoga com o ambiente profissional que se espera de um clássico entre os dois maiores clubes do futebol paulista, em uma das competições de mais alto nível técnico do país.

Sangue no olho

Mas é impossível ignorar o caldo que antecedeu o jogo. O clima bélico foi temperado ao longo da semana e teve como combustível a pressão exercida por torcedores corintianos, que foram ao CT cobrar “raça” e “sangue nos olhos”, em um tom que misturava cobrança e ameaça. Muitos jogadores claramente entraram em campo determinados a dar uma resposta — o problema é que, em vários casos, confundiram entrega com descontrole emocional. O telão do estádio tem os dizeres “Sangue no olho”.

O resultado foi um time pilhado além do limite. Matheuzinho, Gabriel Paulista, Bidon e André são exemplos dessa contaminação, desse desejo quase desesperado de corresponder ao grito das arquibancadas antes mesmo de a bola rolar. Do outro lado, também houve contribuição para o ambiente hostil. Flaco López, dias antes do clássico, publicou uma imagem provocativa nas redes sociais, em que aparecia dando uma voadora na bandeirinha de escanteio com o símbolo corintiano, na Neo Química Arena. O gesto teve consequência direta: o argentino entrou em campo jurado.

Matheuzinho já está jurado

Foi caçado, especialmente por Matheuzinho. Apanhou — e também bateu. Em um dos lances, acertou uma cotovelada em Bidon fora da disputa de bola, não flagrada pela arbitragem nem pelo VAR. Episódios que, somados, ajudam a explicar por que o dérbi foi mais brigado do que jogado, mais disputado no limite da tensão do que no território da técnica.

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Resta saber como essa pendenga seguirá no jogo de volta, na casa do Palmeiras, no segundo turno. Porque, se algo ficou claro no domingo, é que este jogo definitivamente não acabou. É bom todo mundo ficar de olho para o que pode acontecer no “terceiro tempo” deste dérbi.

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