Fiquei uns tempos sem trampar. Foi um ócio em certo aspecto involuntário, porque, embora eu desejasse descansar, preciso admitir que o desemprego durou o suficiente para se fazer angústia. Agora, novamente protegido nos braços da CLT, posso compor um inventário sentimental daqueles dias de vagabundagem.
Li e dormi bastante, o que não é mau. Cozinhei com lentidão, comi com ardor. Viajei, mais por afeto e menos por Instagram. Deambulei em ensolaradas tardes de quarta-feira, solitário entre os apressados. Gozei um prazeroso aperitivo de aposentadoria, embora seja moralmente arriscado confessar isso numa sociedade em que somos ensinados a desprezar o ócio.

Não me interpretem mal, gosto de trabalhar, de me sentir útil e respeitado, da satisfação de criar coisas em conjunto. Mas, destoando um pouco da postura reinante na minha geração, que herdou essa loucura de nossos pais, não confundo vida com trabalho. Enxergo valor além das horas remuneradas.
SERIA TÃO BOM UM ÓCIO DEFINITIVO?
Há porém uma questão que não se encerra em vagabundagens temporárias, dessas com hora para acabar por força da necessidade de sobrevivência. Teria sido tão bom assim permanecer ali, entregue à contemplação, se aquilo fosse definitivo? Estou para dizer que sim, mas sei perfeitamente que ajo sob fraqueza.
A idealização nunca é uma boa conselheira, porque só se manifesta quando estamos sufocados pelas grandes maldades da vida adulta. Cada vez que me pedem para fuçar no Excel ao entardecer de sexta-feira, por exemplo, fico rogando pela velhice num balneário uruguaio. Como serão os invernos por lá, é algo que nunca me ocorre. Só vou saber quando o vento que vem lá do Sul, umedecido pelo Rio da Prata, soprar nas rugas do rosto.
UMA BAITA NOITE PORTENHA
Aliás, foi sob esse mesmo vento que Fernando Diniz voltou a trabalhar, depois de 43 dias de desemprego, tempo insuficiente para angústias profundas, imagino, num sujeito reiteradamente bem pago. Saiu de São Januário em 22 de fevereiro e foi dar em Itaquera no dia 6 de abril. Na estreia, ao chegar à cancha do Platense, em Saavedra, soltou um “Vai, Curíntia”, com o semblante luminoso, aparentemente renovado. Foi uma baita noite portenha: sapecou os argentinos, com gol de cavadinha e tudo.
Mas será que teve tempo de ler e dormir bastante? De cozinhar com lentidão, de comer com ardor? Será que viajou por prazer? Numa quarta-feira ensolarada, deambulou solitário entre os apressados? Um homem saudado e repelido pelo que tem de ousado pode deambular sem ser reconhecido?
O PODER ENTORPECENTE DO FUTEBOL
O cara já está aí, de novo, sofrendo maledicências de quem gosta de ver troca de passes apenas na zaga dos outros, de quem admite experimentalismos só em amistoso. Colocou-se como alvo da mesma impaciência apressada e da mesma antipatia sem profundidade, que ecoa, livres de autocrítica, nos microfones de quem frequenta a zona mista, as coletivas, o CT.
Deve haver algo narcótico no futebol que um sujeito dado a ócios contemplativos jamais vai entender. Mas o bom da CLT é que temos horário de almoço. Vou aproveitar parte desse tempo, logo ao fim da marmita, para examinar essa incapacidade de se deter naquilo que talvez salvasse o futebol: o tempo. Com sorte, chego a uma conclusão antes da glória da aposentadoria.





