O dinheiro compra tudo – menos a lógica do futebol. Flamengo e Palmeiras, os dois clubes mais ricos do país, foram eliminados no mesmo dia da Copa do Brasil. E o mais desconcertante: caíram diante de adversários financeiramente combalidos, atolados em dívidas, com dificuldades para pagar salários em dia e praticamente sem nenhum investimento em reforços neste ano. A eliminação conjunta dos dois gigantes do capital levanta uma pergunta incômoda, mas inevitável: até onde, afinal, vai a importância do dinheiro na construção de um grande time?

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Não se trata de negar a relevância do investimento. Seria ingênuo ignorar que, no futebol moderno, a capacidade de contratar, manter estruturas de alto nível e montar elencos competitivos está diretamente ligada à saúde financeira dos clubes. Até porque, os mesmos Flamengo e Palmeiras têm colecionado muitos títulos neste período de caixa saudável. Mas também seria tolo supor que o dinheiro, por si só, garante vitórias. O futebol não segue lógica matemática. E essa é a sua maior beleza. É no improvável que se esconde a nobreza do jogo.

Cebolinhal do Flamengo, marca o gol da vitória sobre o Atlético-MG, mas vê o time cair nos pênaltis / Flamengo

A lógica do capital colocaria Flamengo e Palmeiras como finalistas antecipados de qualquer competição nacional. Um clube investiu R$ 120 milhões no primeiro semestre; o outro, mais de R$ 500 milhões. Têm os melhores centros de treinamento, os salários mais altos e elencos recheados de jogadores de seleção. Ainda assim, foram superados por Atlético Mineiro e Corinthians, dois clubes sufocados por dívidas e vivendo uma grave crise financeira e administrativa.

Dinheiro não compra tudo no futebol

O Galo, com dificuldades para equilibrar as contas do novo estádio, e o Timão, que não contratou ninguém e enfrenta atrasos salariais, deram um tapa na teoria da “espanholização” do futebol brasileiro – a ideia de que, como acontece na Espanha com Real Madrid e Barcelona, dois clubes passem a monopolizar os títulos graças ao desequilíbrio financeiro. A quarta-feira das eliminações é uma prova de que o Brasil ainda resiste a esse modelo tóxico de concentração de poder e capital. Aqui, a camisa ainda pesa. A tradição ainda fala. E a imprevisibilidade segue sendo um dos nossos maiores trunfos.

Abel e Dorival / Palmeiras

Não à toa, o Corinthians, mesmo imerso em uma crise institucional, venceu os dois mata-matas contra o Palmeiras nesta temporada. Ganhou o Paulistão e agora avançou na Copa do Brasil. Não investiu um real em contratações no semestre. Mas teve estádio lotado, jogadores entregues, torcida empurrando e um certo magnetismo de quem já se habituou a decidir grandes jogos.

As lições que ficam de Fla e Palmeiras

Do outro lado, o Palmeiras, clube-modelo de gestão, dono de uma das melhores estruturas do continente e com elenco milionário, sucumbiu diante da força simbólica de um rival em frangalhos. E, no dia seguinte, a torcida se pergunta: para quê tanto investimento se o time não responde quando mais importa?

Talvez a pergunta certa seja outra: o que o dinheiro não compra no futebol? Não compra tradição e história. Não compra atmosfera e jogo decisivo. Nem camisa pesada. Não compra alma. E se o futebol ainda é maior que as finanças, isso diz muito sobre por que seguimos apaixonados por ele.

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