Por Fernando Valeika de Barros
Clube de futebol da moda na Europa desde que conquistou a Liga dos Campeões, em 2025, o Paris Saint-Germain é um dos raros times que não tinham um clássico local para chamar de seu. Desde os anos 1980, o PSG reinava sozinho no seu pedaço. Em Paris. Afinal de contas, seu arquirrival é o Olympique de Marselha, separado por 774 quilômetros de distância. Ok, desde 1971, cada vez que disputam o Le Classique, as duas equipes protagonizam jogos que, invariavelmente, misturam muita provocação, empurrões e brigas dentro e fora de campo. Porém nada comparável com o clima de um Fla-Flu, de um Derby, de um Majestoso ou de um Gre-Nal que divide corações e mentes em uma mesma cidade.
Mas essa história pode estar a dias de mudar, com a reestreia do Paris FC, no mesmo campeonato da Ligue 1, a primeira divisão francesa, 48 anos depois de ser rebaixado para as divisões inferiores. Nos desejos dos torcedores do Paris FC, dentro de alguns anos, seu clube preferido poderia repetir contra seus vizinhos confrontos equilibrados como os que aconteceram em 1978, quando o PSG e o Paris FC ainda tinham uma história modesta, lutando mais contra o rebaixamento do que por títulos.

Naquele ano, quando estiveram juntos no mesmo campeonato, pela primeira e única vez, os dois times parisienses jogaram duas vezes – e empataram. Seis anos depois, tocado pelo dinheiro do francês Jean-Luc Lagardère, a cidade de Paris chegou a ter um segundo time na Ligue 1, o Racing. Mas, apesar do elenco com estrelas, como o uruguaio Enzo Francescoli, o argelino Rabah Madjer e o francês Luis Fernández, entre outros, e de confrontos equilibrados entre os dois times, em 1990, o Racing de Paris foi rebaixado e desceu ladeira abaixo. Hoje, disputa a quarta divisão do futebol francês.
Rivalidade com o PSG
A médio prazo, no melhor dos mundos, a turma do Paris Football Club sonha com duelos equilibrados, como os que já aconteceram entre os dois clubes no futebol feminino. Na última Copa da França de Futebol para mulheres, as duas equipes parisienses empataram nos 90 minutos e na prorrogação e o Paris FC foi o campeão ao vencer por 5 a 4 na disputa de pênaltis.
PSG tem mais dinheiro
No futebol masculino isso ainda parece distante, tamanho é o abismo financeiro que separa os dois times. Desde junho de 2011, os cofres do PSG são turbinados por milhões de dólares do fundo soberano de investimento do Catar, país árabe que possui enormes reservas de gás natural. Seguindo conselho do ex-presidente francês, Nicolas Sarkozy (por sinal, presença constante nos jogos do time), o emir Tamim bin Hamad al-Thani, o governante do país, que aplicava um bom dinheiro em empresas e imóveis (em Londres tem mais propriedades do que a rainha da Inglaterra), decidiu diversificar e investir em futebol.

O fundo do Catar desembolsou cerca de 69 milhões de euros e comprou 70% das ações do PSG. E não parou por aí: nos quinze anos seguintes, os catarianos colocaram montanhas de dinheiro no time com o objetivo de montar equipes capazes de conquistar não apenas a França, mas também o mundo. Estima-se que para contratar jogadores do calibre do argentino Lionel Messi, do francês Kylian Mbappé, do brasileiro Neymar ou do inglês David Beckham, o PSG gastou, aproximadamente, 2 bilhões de euros, tudo em busca da realização do sonho de conquistar o seu lugar entre os grandes da Europa.
Grupo forte no comando do Paris FC
Para não dar vexame em uma Liga em que o todo-poderoso vizinho é o dono da bola, o projeto do segundo clube de Paris combina gestão e dinheiro. O PFC já estava em um período de ascensão nas mãos do empresário francês Pierre Ferracci, fundador e diretor-presidente do grupo Alpha, uma das grandes empresas francesas na área de consultoria de recursos humanos. Amigo pessoal e padrinho de casamento de Emmanuel Macron, o presidente da França, e pai de Marc Ferracci, ministro da Indústria e Energia do atual governo, o executivo tinha conseguido chamar a atenção para o segundo time de Paris.
Conhecido pelos bons resultados na formação de base (nos últimos anos, o Paris FC revelou jogadores que foram convocados para a seleção francesa, como Axel Disasi, Ibrahima Konate ou Nordi Mukiele), o time já vinha se estruturando para dar uma guinada. Tinha integrado ao seu conselho administrativo nomes como Michel Denisot, o executivo da emissora de TV, Canal Plus, que tinha participado de uma importante etapa de transformação do PSG, entre 1991 e 1998, antes da chegada do dinheiro do fundo de investimentos dos catarianos. Foi nesta época que o clube, que tinha os brasileiros Raí, Ricardo Gomes e Leonardo, todos contratados por Denisot, ganhou o campeonato francês e a Recopa da Uefa, seu primeiro título na Europa.
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Craque desse time histórico, o brasileiro Raí foi convidado por Denisot, agora na sua nova função, para ser embaixador do Paris FC. Dentro de campo, este ano, o clube estava se destacando na segunda divisão, com boas chances de conseguir o acesso para a Ligue 1.

Donos têm fortuna de US$ 186 bilhões
Em outro golpe de mestre, Ferracci, o presidente do clube, decidiu oferecer ingressos gratuitos e, assim, lotar as arquibancadas do estádio Charléty, onde a equipe jogava.
Foi assim que o time da segunda divisão da França chamou a atenção da família Arnault – dona da LVMH, a holding formada por gigantes de bens de luxo, que tem marcas como a Louis Vuitton, a Moet Chandon, a Henessy, a Christian Dior, entre outras 75 grifes de prestígio.
Dono de uma fortuna estimada em cerca de US$ 186 bilhões, segundo a revista norte-americana Forbes, o clã Arnault, por meio de sua holding familiar Agache, adquiriu 52,4% das ações do Paris FC e colocou na operação os filhos do patriarca Bernard Arnault. Ferracci ficou com cerca de 30% do capital, com o compromisso de que passará essa fatia para os sócios em 2027, juntamente com a presidência do clube, que será exercida por Antoine, filho mais velho de Arnault e CEO da marca Christian Dior.
Outros 10,6% do capital já foram adquiridos pelo grupo austríaco Red Bull, proprietário de uma marca de bebidas energéticas cuja fórmula o tailandês Chaleo Yoovidhya e o austríaco Dieter Mateschitz registraram nos anos 1980. Essa participação será elevada a 15% daqui a dois anos.
Red Bull está no projeto
Para turbinar as vendas de sua bebida – 12,6 bilhões de latinhas por ano com faturamento de US$ 11,7 bilhões –, a Red Bull investe, a cada temporada, cerca de US$ 2 bilhões em esporte. Além de bancar eletrizantes corridas de avião, a marca dos dois touros bravos coloca dinheiro em times de futebol (em Nova York, nos Estados Unidos, Leipzig, na Alemanha, Salzburgo e Liefering, na Áustria, e Bragança Paulista, no Brasil), patrocina atletas de snowboard, skate e ciclismo.
Desde 2004, decidiu apostar pesado na F1 ao arrematar duas equipes na bacia das almas: primeiro pagou US$ 1 pela ex-Jaguar, que virou Red Bull e já conquistou oito títulos de pilotos e seis de construtores. Em 2005, criou a Toro Rosso (hoje, Alpha Tauri), montada com a estrutura da italiana Minardi, transformada em um trampolim para revelar e amadurecer jovens talentos para sua principal escuderia.
Nas mãos de Jurgen Klopp
O mesmo raciocínio de apostar em gestão competente e talentos em ascensão é usado nos times de futebol apoiados pela marca, conhecidos por formarem elencos competitivos. Para elevar o nível e dar um passo adiante, em outubro do ano passado a Red Bull contratou o alemão Jurgen Klopp, considerado um dos melhores técnicos de futebol da atualidade.
Nomeado como chefe de operações das equipes do grupo, ele tem carta branca para supervisionar métodos de treinamento, filosofia de jogo e desenvolvimento de novos jogadores nos clubes de futebol masculino e feminino apoiados pela marca na Europa, Estados Unidos e América do Sul. Ele esteve no Brasil recentemente.

Nem é preciso dizer que a oportunidade de fincar raízes na capital da França era ótima para todos. “Sou torcedor do PSG desde os 12 anos e ele sempre estará no meu coração, mas há espaço para dois clubes em Paris, para duas histórias diferentes, que podem ser complementares”, disse Antoine Arnault, um dos herdeiros de Bernard Arnault e CEO da Christian Dior, na entrevista coletiva que concedeu no dia em que a LVMH anunciou o projeto de investimento no Paris FC. “Este é um projeto de longo prazo para a nossa família: aprendemos isso com a moda, onde um designer precisa de tempo para criar.”
Estádio novo em Paris
Para marcar o início da nova era, o Paris FC decidiu mudar de endereço: deixou para trás o campo de Charléty e passará a mandar seus jogos no estádio Jean Bouin, onde o único inquilino era o Stade Français, o principal clube de rúgbi da capital francesa.
Inaugurado em 1937 e reformado há duas décadas, a arena, com capacidade para 20 mil pessoas, fica a alguns poucos passos de distância do Parc des Princes, na mesma rua Claude Farrère, do outro lado da calçada. É quase a mesma coabitação que existe entre os centros de treinamento do Palmeiras e do São Paulo, vizinhos de muro na avenida Marquês de São Vicente, na Barra Funda, em São Paulo.
Já tem brasileiro no Paris FC
Além dos planos de revelar jogadores para revender com lucro, a nova direção busca formar uma equipe competitiva. Um dos recém-contratados é o zagueiro brasileiro Otávio, que veio do Porto (17 milhões de euros). Desde junho do ano passado também chegaram com cartaz o ponta-esquerda nigeriano Moses Simon, que jogou no Nantes e no Levante, da Espanha (ele custou 7 milhões de euros) e o volante francês Maxime López, que jogou nos italianos Fiorentina e Sassuolo e atuou na seleção francesa sub-21.
Ainda parece pouco para encarar um colosso como o PSG de igual para igual. Mas há um plano arrojado e gente competente para fazer as coisas acontecerem. Dentro de poucos dias, a partir do próximo 17 de agosto, quando, pela primeira vez em 47 anos, os dois times de Paris entrarão em campo por um mesmo campeonato, começará o primeiro capítulo desta nova era. É bem possível que uma nova rivalidade no mundo do futebol possa, finalmente, surgir na Cidade Luz.







